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sexta-feira, 21 de junho de 2013

A luz irrompe onde nenhum Sol brilha - poema de Dylan Thomas


A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer
Extraído de The Poems of Dylan Thomas (1937), em trad. de Fernando Guimarães

Desobediência civil – um poema de António José Fortes






se a preguiça encantadora dos homens
deve acabar a sua obra e a sua língua de fogo
unir os dias e as noites do desejo
então saudemos as grandes afirmações:
«a poesia deve ser feita por todos» e
«a poesia é feita contra todos»

os devoradores de cultura podem sair pela esquerda alta
fiquem os amantes obscuros e o único os raros
todos os nus
porque a língua portuguesa não é a minha pátria
a minha pátria não se escreve com as letras da palavra pátria


Vêde
sobre a coroa de silêncio do vulcão adormecido
uma ave a sua plumagem de cores trémulas
e as asas que escrevem letra a letra o nome definitivo do homem
e no entanto multidões de gnomos
cada qual com o seu estandarte
esperam à entrada dos cemitérios
para saudar o fogo-fátuo

eu passo de bicicleta à velocidade do amor
atravesso a terra de ninguém com um dia de chuva na cabeça
para oferecer aos revoltados


António José Fortes, uma faca nos dentes, c/pref. de Herberto Hélder e desenhos e fotografias de Aldina, Parceria A. M. Pereira, Liboa, 2003,  pp. 95-6


quinta-feira, 20 de junho de 2013

NÃO AFIRMES! – um poema de João Rui de Sousa

Quantos frutos, quantos ventos, quantos mastros
de grandes odisseias? Quanto sofrimento
(ou quanto necessário atrevimento) num só grito?
Quanto de aparente força é só miragem,
só ânfora de vazio?
Quanto de excremento e lume
num céu de calma e mito?

Quanto do destino é um bojudo cofre
pejado só de medo? Quanto consumido sonho
no queimante vinho?
Quantas vidas em ti próprio?
Quantas côdeas e fermentos – perdidas
manchas a alastrar por esse mundo?
Quanto tempo?

- Não afirmes, não te apresses,
não respondas,
enquanto não souberes fazer perguntas.

João Rui de Sousa, Enquanto a noite, a Folhagem, Tertúlia, 1991, P. 94.

Herberto Hélder, Servidões: o poema como via mística

Os poemas do último livro de Herberto Hélder, enunciados na primeira pessoa, são apresentações de um sujeito que se buscou a si próprio enquanto vida “compacta e íntima” através da criação do poema enquanto entidade “gramatical”.

O texto em prosa com que o livro se inicia dá o mote dessa busca poética:
“Compreendi então: cumprira-se aquilo que eu sempre desejara – uma vida subtil, unida e invisível – que o fogo celular das imagens devorara. Era uma vida que absorvera o mundo e o abandonara depois, abandonara a sua realidade fragmentária. Era compacta e limpa. Gramatical.”(p. 19).

Por esta razão, estes poemas de carácter lírico reenviam para um horizonte de problematização ontológica, o momento em que o sujeito se autocompreende no presente a partir do arco hermenêutico da memória de toda a sua experiência passada e do horizonte de expetativa de uma vida a vir “sob o olhar da morte”.

O compromisso radical da escrita com a vida do poeta, sob o olhar da morte e da condenação do passado ao esquecimento, obriga-o a pensar a criação não como reunião das marcas de um saber insignificante da tagarelice comum, mas como a busca de uma “voz paupérrima”, compatível com uma revelação da “vida invisível” sempre procurada e agora, como diz S. Paulo, visada como “em espelho e em enigma”.

É nesta noite do despojamento, que o poema instaura, que o poeta espera ver surgir a vida invisível, procurada ao longo do seu percurso de autor. É por isso no poema, não no poeta que reside a verdade procurada.
Assim, esta poesia como trabalho da linguagem mergulha numa experiência de vida com uma abertura religiosa, com ressonâncias místicas.

A tópica “da noite obscura”, típica de místicos como Hildegaard von Bingen, Meister Eckhart ou S. João da Cruz, encontra-se presente no poeta.

Meister Eckhart, por exemplo, diz: “verdadeiramente, é na obscuridade que se encontra a luz e quando estamos tristes essa luz está mais próxima de todos nós.”

Herberto Hélder reescreve este pensamento neste poema:
“Talvez certa noite uma grande mão anónima venha por mim
um a um, lado a lado, escavando
escrito os nomes
um a um escrito os nomes mais esquecidos
e entre nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre.” (p. 117)

Esta meditação de Herberto Hélder, que foi feita em registo claramente cristão por Hildgaard von Bingen, pode ser escutada online, por exemplo, na peça musical "Ordo virtutum",  de Hildgaard von Bingen, sobre o caminho moral da alma das trevas do mundo para a luz de Deus. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Pitágoras: um poema de João Rui de Sousa



I
a força  é como um boi enquanto os números
enquanto a vida corre e não a morte
enquanto é invenção sinal concreto
de iluminar os seres e os ligar

enquanto é substância de cimento
raiz nascer em águas ordenadas

enquanto é sol perfeito e crescimento

II

A noite é como um prego enquanto os números
enquanto a consciência já se abre
enquanto o sol se espelha            é um edifício
a caminhar na erva iluminada


a noite é como um prego enquanto segue
o esquadro e o compasso deste vício
de alinhar as cores mais desvairadas
ou de queimar perfis de diversão

a noite é como um prego enquanto o dia
ao calor da paz se ordena instala
a rectidão das coisas que nos guia
João Rui de Sousa,  Meditação em Samos, Ed. Galeria Panorama, 1970, 40-1
Comentário
Transcrevi este poema com o intuito de evidenciar a noção da criação poética nele presente. Trata-se de um trabalho exigente, um ofício órfico “alinhado a esquadro e a compasso” a partir de um impulso originário, animal, “uma força como um boi”.
Dois autores figuram na epígrafe da obra: Heráclito e Marco Aurélio. Para o primeiro, só o logos que escuta o ser, que se revela ao homem, torna possível ao homem viver na verdade. Para o segundo, esse mesmo logos torna o homem senhor da palavra justa, que torna possível a vida boa em comum com os outros.
A poesia abre assim o espaço onde se manifesta o fulgor do mundo e o ser humano encontra a sua paz, abertura ao outro, encontro, solidariedade. Por isso, a poesia torna-se uma busca ontológica ao serviço da realização moral do ser humano.
Tem assim pleno cabimento a opinião de Gastão Cruz (cf. Poesia Portuguesa Hoje, 1973, p. 371), que considera que a poesia de João Rui de Sousa se enraíza numa matriz clássica, sendo o poema ordenado e modelado a partir de uma exigência geométrica: de equilíbrio, harmonia, ordem, nitidez.
 A temporalidade da vida (“enquanto”) e a sua procura de significação é construída com o recurso a palavras que denotam a luta dos contrários (vida/morte; luz/escuridão; terra/fogo …), visando a dominância dos substantivos traduzir a atitude de despojamento essencial necessário a um existir regido pelo princípio de uma sabedoria, que a letra minúscula e ausência de pontuação do poema acentuam.
Ao trazer ao espaço público este excelente poeta, que, afora os meios académicos, se encontra votado ao limbo do esquecimento, pela “excessiva” atenção concedida a outros, procurei fazer-lhe justiça, modestamente. Oxalá outros partilhem também deste sentimento.



domingo, 7 de abril de 2013

Resgatando a agonia dos obscuros, poema de Alvaro Mutis



LADAINHA
Esta era a ladainha que El Gaviero recitava enquanto se banhava nas águas do delta:
Agonia dos obscuros
recolhe os teus frutos.
Temor dos ancestrais
dissolve a esperança.
Ânsia dos fracos
arrefece os teus ramos.
Água dos mortos
regula o teu leito
sino das minas
modera as tuas vozes.
Orgulho do desejo
esquece os teus dons.
Herança dos fortes
entrega as tuas armas.
Pranto das esquecidas
resgata os teus frutos.
E assim continuava, indefinidamente, enquanto o barulho das  águas afogava a sua voz e a tarde refrescava as suas carnes laceradas pelos mais variados e obscuros labores.



Nota explicativa: o personagem el Gaviero referido no poema é ficcional (tal como Macqrol) e está presente em toda a obra do escritor colombiano Alvaro Mutis. Trata-se de um velho marinheiro, rebelde e visionário, que conta as suas façanhas pelo mundo, em prosa e em verso.  

A escolha deste poema destina-se tão só a concitar a atenção do público para este grande escritor, do qual foi editada recentemente, pela Assírio & Alvim, uma antologia da sua obra poética intitulada Os versos do Navegante, com tradução de Nuno Júdice.