Natália Correia considerou um dia que na nossa cultura a poesia satírica não deve ser considerada um género menor, e não apenas porque ela esteve sempre presente em todos os períodos da nossa literatura mas também porque toma por objeto os vícios dos homens sempre presentes.
Também desde os alvores da cultura grega (séc. VII a.C.) a poesia lírica e satírica se manifestaram. Arquíloco foi um poeta maior nestes dois domínios, embora da sua obra só nos restem fragmentos. Soube ultrapassar os quadros específicos da epopeia em direção à lírica, pois a sua poesia exprime a sua vida, agora os poetas falam de si próprios, cientes da sua individualidade.
A sua criação poética está, assim, marcada pela descoberta do individualidade e apresenta uma independência interior incompatível com qualquer tipo de controle institucional.
Rebelde aos padrões épicos, as temáticas de sua obra tomam expressão na sátira, no vitupério jocoso e, por vezes, obsceno. Por exemplo:
“Pai Licambas, que coisa é esssa que disseste?
Quem te tirou o siso?
Dantes eras equilibrado: agora, para muitos concidadãos, és motivo de riso.”
(fr. 88 Diels)
“Entenda isso agora: a Néobule
Que outro homem possua
Ai! Ai! Mulher passada, tão débil,
Tua flor virginal já murchou e
O encanto, que outrora existia.” (fr. 196aW 24-28)
(Convém esclarecer o facto que está subjacente aos versos. Licambas tinha estabelecido um contrato de casamento da sua filha Néobule com Arquíloco, que rompeu. Tal levou Arquíloco a invetivá-lo e às suas filhas em verso, opróbrio que os conduziu ao suicídio.)
Mas a poesia é também modo de busca de uma sabedoria que ilumine as várias situações em que decorre a sua existência e possa servir de regra de conduta, para quem a lê ou escreve.
Um exemplo:
“Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
Eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
Adverso. Mantém-te firme aos pés das ciladas
Dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente,
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
Sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.” (fr. 74 Diels)
Esta sabedoria ultrapassa por vezes a medida de Apolo, abrindo-se ao excesso dionisíaco:
“Sei entoar a bela melodia do princípe Dioniso,
O ditirambo, quando o vinho deflagrou como o raio do meu espírito. (fr. 77 Diels)
O filósofo Nietzsche, na sua obra o Nascimento da Tragédia, assinalou justamente em Arquíloco a dimensão subjetiva e transgressora do seu verso, de cujas imagens cintilantes há-de brotar a tragédia: “Quando Arquíloco, o primeiro poeta lírico dos Gregos, proclama o seu amor furioso e em simultâneo o seu desprezo às filhas de Licambas, não é a sua paixão que dança diante de nós em delírio orgiástico; Vemos Dioniso e as Ménades, vemos o entusiástico Arquíloco adormecido na sua embriaguez (…) e é então que Apolo se aproxima dele e o tange com os louros.” (cf. ed. Círculo de Leitores p. 45)
A contradição entre o discurso liberal de
Locke e a sua prática dá que pensar. Ele foi um defensor dos direitos individuais
e contribuiu para a invenção da moderna conceção contratual do Estado ao
serviço dos cidadãos. Deu ainda ao cidadão o direito de resistir a uma decisão
injusta tomada pelo Estado. Mas, por outro lado, estabeleceu, nas proposições que
elaborou para uma “Constituição da Carolina”, o poder e a autoridade absolutos
aos senhores fundiários sobre os “servos” (Locke, por deslize de mágica,
chamou-lhes “servos” e não “escravos”), que podiam ser alienados, vendidos, estavam
privados de liberdade de deslocação e a sua condição de escravatura perpetuava-se aos
seus descendentes.
O que está em causa nesta contradição é
mais do que uma simples incoerência de vida. A sua natureza enraíza-se no
conceito de liberdade de Locke, que esqueceu a sua matriz vital e comunitária
constituinte e assim ficou privado de se abrir à dimensão material da própria
liberdade, segundo a qual a liberdade é um direito inalienável ao serviço da
própria vida individual que deve promover.
Ontem Locke, hoje muitos “liberais” de vários matizes continuam
a esquecer que a liberdade para todos só existe quando todos têm os recursos
para uma vida digna e boa. Este legado
negro de Locke tem levado autores a redescobrir outras matrizes para a
Revolução Americana, nomeadamente Leibniz.
Eis alguns excertos
da “Constituição da Carolina” sobre o que se disse: “Ironically for those
deluded souls who accept the myth of Locke's influence upon the ideas of
American independence, the same John Locke was appointed a founding member of
the Board of Trade, and proved himself the greatest imperialist and most
implacable enemy of America.
Locke had revealed
his intense hostility to American liberties almost 30 years before, as a paid
functionary of the aristocrat Lord Ashley, later the First Earl of Shaftesbury.
When King Charles II revoked all earlier patents, and granted the territory of
Carolina to eight ``lords proprietors,'' including Ashley, Locke became the
company's chief secretary. In that capacity, he wrote the ``Fundamental Constitutions for the Government of
Carolina'' in 1669, an abominable plan to transplant European-style
feudalism to America.
Locke's preamble
stated: ``that we may avoid erecting a
numerous democracy;'' Locke's ``constitution'' established the eight lords
proprietors as a hereditary nobility, with absolute control over their serfs,
called ``leet-men'':
``XIX: Any lord of a manor may alienate, sell, or
dispose to any other person and his heirs forever, his manor, all entirely
together, with all the privileges and leet-men there unto belonging....
``XXII: In every
signory, barony and manor, all the
leet-men shall be under the jurisdiction of the respective lords of the said
signory, barony, or manor, without appeal from him. Nor shall any leet-man, or leet-woman, have liberty to go off from the
land of their particular lord, and live anywhere else, without license from
their said lord, under hand and seal.
``XXIII: All the children of leet-men shall be
leet-men, and so to all generations.''
Black chattel
slavery received particular sanction and protection under Locke's law:
``CX: Every freeman of Carolina shall have absolute
power and authority over his negro slaves, of what opinion or religion so ever.''
From 1672-74,
Locke served as secretary of King Charles II's Council of Trade and Foreign
Plantations (at the same time profiting from personal investments in trade with
the Bahamas). Locke's Council passed the infamous Navigation Acts, enforced by
the punitive Plantation Duties Act of 1673, imposing onerous taxes on colonial
trade, restricting it to English vessels, and prohibiting trade with foreign
countries by requiring that all colonial goods be shipped ``to England, or
Wales, or the town of Berwick upon Tweed, and to no other place, and there to
unload and put the same on shore.''
Throughout this
period, Massachusetts remained in the forefront of American resistance to
Lockean oppression, under the inspired leadership of Increase and Cotton
Mather. When the Crown's agent Edward Randolph demanded submission to the
Navigation Acts, and the effective revocation of the Massachusetts charter,
Increase Mather warned his countrymen: ``We shall sin against God if we vote an
affirmative to it.'' He attacked the Crown's demands as a ``Plot then managing
to produce a General Shipwreck of Liberties,'' and as ``inconsistent with the
main end of their fathers' coming to New England.... Let them put their trust
in the God of their fathers, which is better than to put confidence in prince.”
Texto retirado de:
American Almanac, July 7, 1997:
“Celebrate the 4thof July by Learning American History: Leibniz, not
Locke, Inspired the Declaration Of Independence”
Após o malogro do ideário emancipatório da Revolução Francesa e da retomada política das forças conservadoras na Europa, na sequência da Conferência de Berlim (1815), a Alemanha, que tinha ficado incólume ao sobressalto da história, foi anunciando na filosofiae na literatura a necessidade de uma transformação política e cultural consequente com o espírito das Luzes.
Dois exemplos significativos no plano filosófico da necessidade de mudançasestrutrurais na ordem existente encontramo-los em Fichte e em Hegel.
Fichte procede a uma justificação teórica da revolução na sua obra Considerações sobre a Revolução Francesa, de 1793, contra os seus detractores (nomeadamente Burke).
Hegel assume o legado revolucionário como um momento necessário mas não suficiente do devir da história , na obra Fenomenologia do Espírito (1807), perspetiva que desemboca na sua conceção da racionalidade do Estado enquanto manifestação concreta da ideia moral, isto é, enquanto Estado de Direito, nos Princípios da Filosofia do Direito (1821).
No plano da literatura, o movimento do século XVIII Stürm und Drang é o primeiro tiro de partida do protesto anti-absolutista, logo seguido pela lírica patriótica dos românticos. Mas é no período que ficou conhecido pelo Vormärz (entre 1830-48) que se exprime uma radicalização da consciência dos problemas do tempo, que tomou expressão estética numa literatura comprometida, que se opunha à evasão romântica e que fazia a denúncia de todos os dogmatismos (político, ético, religioso, social) para a emergência de uma sociedade livre, sem senhores nem amos.
É a este propósito exemplar o caso do escritor e dramaturgoKarl Georg Büchner(1813-1837), que integrou o movimento político-literário da Jovem Alemanha, o “Junges Deutschland” eque um decreto régio de 1835 pôs fora da lei, não permitindo aos seus membros a publicação das suas obras.
A sua obra literária inovadora é um meio de expressão da sua atitude revolucionária face à ordem existente, a qual tomou forma objetiva na sua intenção de promover uma insurreição em Hesse sob o lema: “Paz às cabanas! Guerra aos palácios!” Esta proclamação pagou-a Büchner com uma ordem de prisão que o obrigou a refugiar-se na casa do pai.
Nas suas obras, pensa o fracasso da Revolução Francesa (na Morte de Dantonde 1835) e satiriza o ideário romântico, nas novelas Leôncio e Lena e em Lenz. Com a peça Woyzeck, umpobre fuzileiro miliciano, faz a denúncia da opressão a que são votados os humildes por parte dos que detém poder (na peça, surge um capitão, um médico e um judeu). O desfecho de tanta humilhação, à descoberta da traição da mulher (Maria) com quem vive, com um filho e em condições miseráveis,é o assassinato desta.
A peça é hoje o texto da dramaturgia alemã mais montado em todo o mundo, tendo sido adaptado também para a ópera por Alban Berg (1921) e para o cinema por Werner Herzog (1979).
Trancrevo a Cena I do primeiro Acto:
“(O Capitão está sentado sobre uma cadeira; Woyzeck faz-lhe a barba.)
CAPITÃO— Calma, Woyzeck, calma; uma coisa depois da outra! Mas ele deixa-me tonto! E o que vou fazer dos dez minutos que ele ganhou, acabando cedo demais? Woyzeck, pense: você só tem os seus trinta lindos anos de vida, trinta anos! São trezentos e sessenta meses... e dias, e horas, e minutos! E o que vai fazer com todo esse tempo? Convém planificar, Woyzeck!
WOYZECK—Sim, senhor Capitão!
CAPITÃO—Temo pelo mundo, quando penso na eternidade. O trabalho, Woyzeck, o trabalho! Eterno, ele que é eterno, ele que é eterno. Você é capaz de ver isso? No entanto' logo deixa de ser eterno' num instante, é, num instante, Woyzeck. Tenho pavor quando penso que o mundo faz uma volta num dia! Que perda de tempo! Para onde isso nos leva? Já não posso ver a roda de um moinho, Woyzeck, sem ficar melancólico.
WOYZECK — Sim, senhor Capitão.
CAPITÃO— Você está sempre tão apressado' Woyzeck! Um homem de bem não fica assim, um homem de bem, com a consciência tranquila. Mas diga alguma coisa, Woyzeck! Como está o tempo?
WOYZECK— Mau, senhor Capitão, mau. Muito vento. CAPITÃO—Já estou sentindo; é como se alguma coisa corresse lá fora. Esse vento age sobre mim como um rato.
(Manhoso.) Acho que vem na direção sul-norte.
WOYZECK— Isso mesmo, senhor Capitão.
CAPITÃO—Ha, ha, ha! Sul-norte! Ha, ha, ha! Oh, como ele é bobo, como é lastimàvelmente bobo! ( Comovido. ) Woyzeck é um bom homem . . . Mas (Com dignidade.) Woyzeck não tem moral. Moral é quando a gente tem moralidade, entende? É uma bela palavra. Tem um filho sem a bênção da Igreja, como diria o nosso reverendíssimo capelão. Sem a bênção da Igreja, e não é meu.
WOYZECK - Senhor Capitão, o bom Deus não deixará de cuidar do pobre vermezinho, só porque não disseram "amém" antes de ser feito. O Senhor disse: Vinde a mim as criancinhas !
CAPITÃO—O que é que ele está dizendo? Que resposta mais curiosa esta? A resposta deixa-me todo confuso. E quando digo ele, refiro-me a você, a você…
WOYZECK— Nós, os pobres... Sabe, senhor Capitão, o dinheiro, o dinheiro! Quem não tem dinheiro. Às vezes, um de nós coloca um dos nossos diante da moralidade do mundo. Também temos carne e sangue. Pois não somos mesmo desgraçados, neste mundo e no outro'' Acho que, se chegássemos ao céu, teríamos de ajudar a fazer os trovões.”
CAPITÃO—Woyzeck, você não tem virtudes, você não é virtuoso. Carne e sangue! Quando estou à janela, depois da chuva, e vejo as meias brancas passando, pulando através das vielas.. Diabo, Woyzeck, o que me dá é amor. Eu também tenho carne e sangue.Mas Woyzeck, há a virtude, a virtude! E como eu deveria passar o tempo? Digo sempre a mim mesmo: você é um homem virtuoso (Comovido.), um homem bom, um homem bom.
WOYZECK — Sim, senhor Capitão, a virtude. Eu não tenho. Sabe, nós, a gentinha, nós não temos virtude, nós só seguimos a natureza. No entanto, se eu fosse um senhor, se eu tivesse um chapéu, um relógio e uma bengala, e se soubesse falar bem, então seria virtuoso, senhor Capitão. Mas eu sou um pobre coitado.
CAPITÃO — Está bem, Woyzeck. Você é um homem bom, um homem bom. Mas pensa demais, isso dói. Você esta sempre tão apressado. Essa conversa esgotou-me inteiramente. Agora vá embora e não corra tanto; devagar, desça a rua bem devagar!”
Paul Valéry, excerto do poema “Palme”, Charmes, 1922
(Adenda: no título deste poema, Valéry recolheu toda a carga simbólica que se encontra presente no ramo da palmeira, na “palma”. Com efeito, desde o Egipto e a Babilónia que a palmeira tomou importância na subsistência, na construção e na confecção de vestuário, expandindo-se progressivamente para outros espaços. Este facto tornou a palma um símbolo de riqueza, de vitória, de ascensão, de fecundidade e de imortalidade em várias culturas. É o caso do ramo de ouro de Eneias e dos mistérios de Elêusis. As palmas de Ramos, que equivalem ao bruxo europeu, prefiguravam a Ressurreição de Cristo, após o drama do Calvário; a palma dos mártires tem a mesma significação. O pé de bruxo significa a certeza da imortalidade da alma e da ressurreição dos mortos. C. G. Jung faz dele um símbolo da alma.)
Amor é o
olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como chuva que cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.
Fiame Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas, Relógio
d´Água, 2000
Não posso
adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Interrogado sobre a sua pátria, o senhor K. respondeu assim: "Em
qualquer lado posso passar fome." E alguém que o ouvia com muita atenção
perguntou por que falava em passar fome se tinha realmente que comer. O senhor
K. justificou-se, dizendo: "É provável que eu tenha querido dizer que
posso viver em qualquer lado se quiser viver onde reina a fome. Admito que haja
uma grande diferença entre alguém passar fome e viver onde reina a fome.
Permitam-me, porém, alegar como desculpa que viver onde reina a fome talvez
seja para mim menos grave do que sofrê-la, mas não deixa de ser muito grave. Para
outros talvez não tenha importância que eu passe fome, mas opor-me ao facto de
a fome reinar, sim, é importante.”
Bertolt Brecht, Histórias do Senhor Keuner, p. 25, Hiena Editora