quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Passar fome, por Brecht: o intolerável

Interrogado sobre a sua pátria, o senhor K. respondeu assim: "Em qualquer lado posso passar fome." E alguém que o ouvia com muita atenção perguntou por que falava em passar fome se tinha realmente que comer. O senhor K. justificou-se, dizendo: "É provável que eu tenha querido dizer que posso viver em qualquer lado se quiser viver onde reina a fome. Admito que haja uma grande diferença entre alguém passar fome e viver onde reina a fome. Permitam-me, porém, alegar como desculpa que viver onde reina a fome talvez seja para mim menos grave do que sofrê-la, mas não deixa de ser muito grave. Para outros talvez não tenha importância que eu passe fome, mas opor-me ao facto de a fome reinar, sim, é importante.”

Bertolt Brecht, Histórias do Senhor Keuner, p. 25, Hiena Editora

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

“Medidas contra a violência”, um conto filosófico de Brecht


Bertolt  Brecht é o criador de um misterioso personagem que figura em vários contos escritos ao longo de trinta anos: o senhor Keuner. São textos curtos (são raros os que ultrapassam uma página) que nos apresentam esse sábio pouco convencional, que usa a ironia filosófica como estratégia de corrosão das ideias dominantes (Propriedade, Indivíduo, Nação, Deus, Bondade, Honestidade, violência). Fazendo-as colidir com a realidade, desperta o sono dogmático do espectador, obrigando-o a abrir-se a um questionamento que o prepara para uma atitude prática.
Repare-se, no conto que se transcreve, como a prática desmente a teoria. A contradição despertará no espetador da peça uma atitude crítica, que o disporá a uma tomada de posição consequente.  Eis o conto:


 Quando o senhor Keuner, o Pensador, se pronunciou contra a violência numa grande sala cheia de gente, reparou que as pessoas começaram logo a recuar e a sair. Voltou-se e viu de pé, atrás de si (…) a Violência.

“O que dizias tu?”, perguntou-lhe a Violência.

“Pronunciava-me a favor da violência” , respondeu o senhor Keuner.

Quando o senhor Keuner saiu, os seus alunos quiseram saber o que era feito da sua coragem. O senhor Keuner respondeu:

“A coragem que tenho não chega para me deixar açoitar. Isto porque preciso de mais longa vida do que a violência.”

E contou a seguinte história:

“Um dia, nos tempos da ilegalidade, em casa do senhor Egge, que tinha aprendido a dizer “não”, apareceu um agente com um documento assinado pelos que reinavam na cidade, dizendo que todo o domicílio onde o portador pusesse o pé passaria a ser propriedade sua; de igual forma, também passaria a pertencer-lhe a comida que reclamasse, e todo o homem que se cruzasse com ele passaria a estar ao seu serviço.
O agente instalou-se numa cadeira, pediu comida, lavou-se, deitou-se e, com o rosto voltado para a parede perguntou, pouco antes de adormecer: “Estás disposto a servir-me?

O senhor Egge tapou-o com uma manta, afugentou as moscas, ficou de vigília enquanto ele dormia e continuou a obedecer-lhe durante sete anos. Não obstante tudo o que lhe fez, houve uma coisa de que se absteve sempre: pronunciar uma palavra, fosse ela qual fosse. O agente, que engordara de tanto comer, dormir e mandar, passados sete amos morreu. O senhor Egge embrulhou-o, então, na manta já gasta, arrastou-o para fora de casa, limpou a cama, caiou as paredes, respirou fundo e respondeu:Não!”

Bertolt Brecht, Histórias do Senhor Keuner, Hiena Editora, pp.17-8



Mensagem de Bento XVI sobre o Dia Mundial da Paz: a justiça social e a promoção de uma educação ao serviço das pessoas são condições necessárias do edifício da paz

BEM-AVENTURADOS OS OBREIROS DA PAZ

(…)  Construir o bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia
5. De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades de escolha devem ser empregues de acordo com a perspetiva duma vida boa, duma conduta reta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando por erguer novos ídolos.
Para sair da crise financeira e económica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa ótica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspetiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom. [5] Concretamente na atividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a atividade económica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos.
No âmbito económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes económicos e com um controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objetivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e económico.

Educação para uma cultura da paz: o papel da família e das instituições
6. Desejo veementemente reafirmar que os diversos obreiros da paz são chamados a cultivar a paixão pelo bem comum da família e pela justiça social, bem como o empenho por uma válida educação social.
Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, económico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida: acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre si através do cuidado recíproco. De modo especial, a família cristã guarda em si o primordial projeto da educação das pessoas segundo a medida do amor divino. A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização duma cultura da paz. É preciso tutelar o direito dos pais e o seu papel primário na educação dos filhos, nomeadamente nos âmbitos moral e religioso. Na família, nascem e crescem os obreiros da paz, os futuros promotores duma cultura da vida e do amor. [6]
Nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas de modo particular as comunidades dos crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça.
Uma missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais, escolásticas e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para uma reflexão científica que radique as atividades económicas e financeiras numa sólida base antropológica e ética. O mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz.
Uma pedagogia do obreiro da paz
7. Concluindo, há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados. Com efeito, as obras de paz concorrem para realizar o bem co­mum e criam o interesse pela paz, educando para ela. Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade e uma cultura da paz, uma atmos­fera de respeito, honestidade e cordialidade. Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância. Incentivo fundamental será «dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas sem as buscar e, finalmente, perdoar »,[7] de modo que os erros e as ofensas possam ser verdadeiramente reconhecidos a fim de caminhar juntos para a reconciliação. Isto requer a difusão duma pedagogia do perdão. Na realidade, o mal vence-se com o bem, e a justiça deve ser procurada imitando a Deus Pai que ama todos os seus filhos (cf. Mt 5, 21-48). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança. (…)



segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Idiotia e Felicidade, por Alexandre O'Neill

Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é suscetível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade. Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela.
Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre-Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.

Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.

Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam.
O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.
Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo.
Oremos.
Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.”
(Alexandre O'Neill, in Uma Coisa em Forma de Assim, Lisboa Edic, 1980)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Earth Song, Michael Jackson

Litania para este Natal, David Mourão Ferreira



Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão-Ferreira

domingo, 23 de dezembro de 2012

À Espera de Godot: uma alegoria da opressão e da submissão voluntária



 Neste excerto da peça À espera de Godot que escolhi, pretendo destacar a relação de dominação que continua a existir tanto entre os indivíduos como entre as classes e as Nações. Esta relação manifesta-se alegoricamente nas personagens de Pozzo (o dono) e de Lucky (o criado), que funcionam como tipos que enquadram as relações sociais e políticas.
O que aqui se encena continua a lançar-nos o desafio enorme de não pactuar com tudo o que na relação dos homens se encontra pervertido pela opressão (económica, social, cultural) de uns sobre os outros. Enquanto isto acontecer, o Natal para todos é uma miragem.
Quando se rompe este ciclo infernal da prepotência de uns sobre os outros? Como pode a verdadeira “semelhança” entre os homens tomar lugar no mundo? A sátira de Pozzo que no texto se faz, que é a minha, é uma brecha. Que se tem de aprofundar pelos meios da ação esclarecida dos que estão amordaçados pelos seus donos.
 “(….)
VLADIMIR. - Cada um é como é.
ESTRAGON. - E não adianta dar voltas.
VLADIMIR. - O fundo não muda.
ESTRAGON. - Não há nada que fazer. (Oferece a VLADIMIR o que sobra da cenoura) Queres acabar isso?
(Ouve-se muito perto um grito terrível. ESTRAGON solta a cenoura. Ficam rígidos e depois precipitam-se para as laterais. ESTRAGON detém-se a meio caminho, volta para trás, agarra a cenoura, guarda-a no bolso, equilibra-se para VLADIMIR, que o espera, volta a parar, retorna, pega no seu sapato e corre a unir-se a VLADIMIR. Agarrados pela cintura, a cabeça sobre os ombros, de costas em ameaça, esperam.
(Entram POZZO e LUCKY. Aquele dirige este através de uma corda em volta do pescoço, de forma que, ao princípio só se vê LUCKY, seguido da corda, suficientemente comprida, como se pudesse chegar ao centro da cena, antes que POZZO apareça pela lateral. LUCKY leva uma pesada mala, uma cadeira desmontável, um cesto com comida e, no braço, um casaco, POZZO, um látego.)
POZZO. - (Dentro.) Mais rápido!
(Estalando o látego. Entra POZZO. Cruzam a cena. LUCKY passa ante VLADIMIR e ESTRAGON e sai. POZZO, ao ver VLADIMIR e ESTRAGON, detém-se. A corda estende-se. POZZO tira-a violentamente.)
 Atrás!
(Ruído de queda. LUCKY caíu com toda a sua carga. VLADIMIR e ESTRAGON olham-no, vacilando entre socorrê-lo e o temor de meter-se no que não lhes diz respeito. VLADIMIR avança um passo para LUCKY, ESTRAGON agarra-o pela manga.)
 VLADIMIR. - Deixa-me!
ESTRAGON. - Tem calma.
POZZO. - Cuidado! É mau. (ESTRAGON e VLADIMIR olham-no) Com os estranhos.
ESTRAGON. - (Baixo.) É ele?
VLADIMIR. - Quem ?
ESTRAGON. - Quem vai ser?
VLADIMIR. - Godot?
ESTRAGON. - Claro.
POZZO. - Apresento-me: POZZO.
VLADIMIR. - Que vai!
ESTRAGON. - Disseste Godot.
VLADIMIR. - O que vai!
ESTRAGON. - (A POZZO.) Não é você o senhor Godot, senhor?
POZZO. - (Com voz terrível.) Sou POZZO! (Silêncio.) Não lhes diz nada este nome? (Silêncio.) Pergunto-vos se não lhes diz nada este nome?
(VLADIMIR e ESTRAGON consultam-se  com o olhar.)
ESTRAGON. - (Como quem busca) Bozzo..., Bozzo.
VLADIMIR. - (Igual) POZZO.
POZZO. - Pppozzo!
ESTRAGON. - Ah!, POZZO, vá, vá... POZZO...
VLADIMIR. - É POZZO ou Bozzo?
ESTRAGON. - POZZO...; não, não me diz nada.
ESTRAGON. - (Conciliador.) Conheci uma família Gozzo. A mãe bordava.
(POZZO avança, ameaçador.)
ESTRAGON. - (Vivamente.) Nós não somos daqui, senhor.
POZZO. - (Detendo-se.) Entretanto, são seres humanos. (Coloca os óculos.) Ao menos pelo que vejo. (Tira-se os óculos.) De igual espécie que a minha. (Solta uma enorme gargalhada.) Da mesma espécie que POZZO! De origem divina!
VLADIMIR. - Ou seja.
POZZO. - (Cortante.) Quem é Godot?
ESTRAGON . - Godot?
POZZO. - Vocês tomaram-me por Godot.
VLADIMIR. - Oh, não senhor! Nem por um momento, senhor.
POZZO. - Quem é?
VLADIMIR. - Pois é um ..., é um conhecido.
ESTRAGON. - Mas, vamos, não o conhecemos quase.
VLADIMIR. - Evidentemente..., não o conhecemos muito bem...; não obstante...
ESTRAGON - Eu, certamente, não o reconheceria.
POZZO. - Vocês confundiram-me com ele.
ESTRAGON. - Bem..., a escuridão..., o cansaço..., a debilidade.... a espera...; reconheço... que por um momento... acreditei...
VLADIMIR. - Não leve em conta, senhor, não faça caso!
POZZO. - A espera? Então, esperavam-no?
VLADIMIR. - Quer dizer...
POZZO. - Aqui? Em minhas terras?
VLADIMIR. - Não pensávamos fazer nada de mau.
ESTRAGON. - Tínhamos boas intenções.
POZZO. - O caminho é de todos.
VLADIMIR. - É o que nós dizíamos.
POZZO. - É uma vergonha, mas é assim.
ESTRAGON. - Não HÁ NADA A FAZER.    
POZZO. - (Com um gesto amplo.) Não falemos mais disso. (Tira-o da corda.) De pé! (Pausa.) Cada vez que cai, fica dormindo. (Tira-o da corda.) De pé, carniça! (Ruído de LUCKY, que se levanta e pega sua carga. POZZO tira-o da corda.) Atrás! (LUCKY entra recuando.) Quieto! (LUCKY pára) Volte! (LUCKY volta-se. A VLADIMIR e ESTRAGON, amavelmente.) Meus amigos: sinto-me feliz por tê-los encontrado. (Ante a sua expressão de incredulidade.) Pois claro, verdadeiramente feliz! (Tira da corda.) Mais perto! (LUCKY avança.) Quieto! (LUCKY detém-se. A VLADIMIR e ESTRAGON.) Já se sabe, o caminho é longo quando se anda sozinho durante... (Consulta o seu relógio), durante ... (Calcula) seis horas, sim, justamente seis horas seguidas sem encontrar uma alma. (Ao LUCKY) Casaco! (LUCKY põe a mala no chão, avança, entrega o casaco, retrocede, volta a pegar na mala.) Toma! (POZZO estende-lhe o látego. LUCKY avança e, ao não ter mais mãos, inclina-se e agarra o látego entre os dentes e depois retrocede. POZZO começa a colocar o casaco, mas detém-se.) Casaco! (LUCKY deixa tudo no chão, avança, ajuda POZZO a colocar o casaco, retrocede e volta a pegar em tudo.) O ar é fresco. (Acaba de abotoar o casaco, inclina-se, olha-se, ergue-se.) Látego! (LUCKY avança, inclina-se, POZZO arranca-lhe o látego da boca, LUCKY retrocede.) Já vêem, amigos, não posso permanecer muito tempo sem a companhia de meus semelhantes (olha os seus dois semelhantes), embora só muito imperfeitamente me assemelhem. (Ao LUCKY.) Cadeira! (LUCKY deixa a mala e a cesta, avança, abre a cadeira desmontável, coloca-a, retrocede e volta a pegar na mala e no cesto. POZZO olha a cadeira.) Mais perto! (LUCKY deposita a mala e o cesto. Avança, move a cadeira, retrocede, volta a pegar a mala e o cesto. POZZO senta-se, apoia o extremo de seu látego no peito do LUCKY e empurra.) Atrás! (LUCKY retrocede) Mais atrás! (LUCKY volta a retroceder.) Quieto! (LUCKY detém-se, a VLADIMIR e ESTRAGON.) Por isso, com a sua permissão, ficarei um momento junto de vocês, antes de me aventurar mais adiante. (A LUCKY) Cesto! (LUCKY avança, entrega o cesto, retrocede) O ar abre o apetite. (Abre o cesto, tira um pedaço de frango, um pedaço de pão e uma garrafa de vinho. A LUCKY) Cesto! (LUCKY avança, pega o cesto, retrocede e fica imóvel.) Mais longe! (LUCKY retrocede). Aí! (LUCKY detém-se.) Empresta! (Bebe um gole na mesma garrafa) À nossa saúde! (Deixa a garrafa e fica a comer)
(Silêncio. ESTRAGON e VLADIMIR, encorajando-se pouco a pouco, giram ao redor de LUCKY e olham-no por todo lado. POZZO remói com voracidade a parte de frango e atira os ossos depois de chupá-los. LUCKY dobra-se lentamente até que a mala toca o chão, incorpora-se bruscamente e começa outra vez a dobrar-se seguindo o ritmo de quem dorme de pé).”