terça-feira, 16 de abril de 2013

Quo usque tandem abutere, Europa, patientia nostra?


Parafraseando a frase do Discurso Contra Catilina, proferido por Cícero no Senado Romano, podemos dizer hoje o mesmo, em jeito acusatório, a outro personagem: “Até quando, ó Europa, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura?...”
O Diretório que pilota esta grande nau faz lembrar o comandante do Costa Concórdia, esse palácio flutuante: quando o barco encalhou, a primeira coisa que fez foi “dar às de vila Diogo”, abandonando o paquete à sorte do destino, de mau augúrio, entretido que estava no momento do embate na rocha com os seus delírios eróticos imediatos.
 Agora, o naufrágio à vista devia aconselhar outra prudência, que era possível: recuperar o espírito solidário do Tratado de Roma e de Maastricht, rasgar o princípio da unanimidade das decisões do Tratado de Lisboa, perceber que não é penalizando os países periféricos (os mediterrânicos e a Finlândia) mas avançando para um projeto de mudanças estruturais nas políticas bancária e financeira, mutualizando as dívidas soberanas dos países em espiral recessiva (sobretudo a Grécia e Portugal), avançando drasticamente a um ataque sem tréguas à especulação financeira no seu espaço e procurando negociar com outros países, em escala crescente (por exemplo, os Estados Unidos), o alargamento de processos de regulação externa que minimizassem aquela.
A condição de todas as mudanças referidas é de natureza política: a constituição de um Estado supranacional, que dialectizasse verticalmente as políticas nacionais com o direito de cada Nação a participar, em pé de igualdade, na tomada de decisão comum, de modo a salvaguardar os interesses nacionais, protegendo os dos países mais fracos relativamente aos mais fortes.  
Mas os sinais de mudança são muito tíbios, encontrando-se a sua causa na falácia da crença de alguns ( a Alemanha é o grande exemplo) de que sobretudo há que proteger os  interesses nacionais “über alles”: Por isso, a esperança de um porvir diferente está, no momento, numa zona de sombra, dado o eclipse.
Não é de admirar que hoje, em Portugal, da centro-direita ao centro esquerda, vozes se alarmam com o rumo da Europa, que a está a conduzir ao abismo, facto que uma ampla corrente de opinião pública, de personalidades (por exemplo, Viriato Soromenho Marques) e de formações partidárias (o melhor exemplo é o Bloco de Esquerda).
É assim que o economista António Nogueira Leite (centro-direita) afirma no programa Prós e Contras - “Ficar ou Sair do Euro? – do dia 15 do corrente: “A europa é um foco de irracionalidade para si própria”. Contudo, acha que Portugal não deve dar o passo, por princípio, de sair do Euro, seria regressar a patamares de empobrecimento enormes.
Já o economista Ferreira do Amaral, com a mesma consciência da irracionalidade existente, advoga, se nenhuns sinais surgirem depois das eleições alemãs de Setembro, uma saída negociada do Euro.
Convido de novo o leitor a escutar o poema cantado de Carlos Drummond de Andrade “E agora José”, que já postei neste blog, no intuito de marcar que a morte maior é a abdicação ou ou resignação ao que tiver de ser.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O homem português e a sua influência na sociedade brasileira, por Gilberto Freire

Alexandre Herculano avança a tese, para explicar a deriva histórica do homem português, de que o elemento decisivo tem de buscar-se a partir de uma dupla matriz cultural: europeia, por um lado, (celtas, suevos, germanos) e africana, por outro, (árabes, berberes, libifenícios, capsienses ou magrebinos).
É a partir desta tese, que a antropologia e a arqueologia vêm confirmando, que o antropólogo Gilberto Freire vai construir a sua interpretação da colonização do Brasil, como um ingrediente da sua própria cultura e identidade.
Segundo este autor, retomando Aubrey Bell, “o carácter português (…) é como um rio que vai correndo muito calmo e de repente se precipita em quedas de água: daí passar do “fatalismo” a “rompantes de esforço heróico”; da “apatia” a “explosões de energia da vida particular e a revoluções na vida pública”; da “docilidade” a “Ímpetos de arrogância e crueldade”; da” indiferença” a “fugitivos entusiasmos”, “amor ao progresso”, “dinamismo”. (…)”
Por isso, conclui Gilberto Freire: “o que se sente em todo esse desadoro de antagonismos são as duas culturas, a europeia e a africana, a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia, de sua arte um regime de influências que se alternam, se equilibram ou se hostilizam. Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade, a indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se compreende o especialíssimo carácter que tomou a colonização no Brasil, a formação sui generis da sociedade brasileira, igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre antagonismos”. (Gilberto Freire: Casa Grande & Senzala, Ed. Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 2000, p. 82)

Acrescento em forma de Midrach Halakah:
Esta tese da dualidade cultural do homem português pode ser um fator de esperança para a crise em que nos afundamos se houver capacidade política de dar forma e direcionar o dinamismo, a mobilidade, a adaptabilidade e a plasticidade a condições adversas que estão na matriz cultural do homem português.
Mas essa capacidade hoje não se pode pensar no quadro da dicotomia tradicional em que o poder decide tendo os cidadãos apenas um papel externo, quando muito propositivo, dada a complexidade e incerteza em que estamos mergulhados.
É assim necessário repensar e reinventar um novo modo de exercício do poder, que não se deixe aprisionar pelo imediato e que aceite que a tomada de decisão política não pode ser hierárquica, de cima para baixo, mas que nela devem participar outros atores, os que se situam “acima” e “fora” (os “técnicos”) e os que são afectados pela decisão (é a isto que Daniel Innenarity chama “delegação vertical” e “delegação horizontal”. Alem disto, o velho par da retórica de Aristóteles do ethos e do logos dos agentes continua a ser uma necessidade relevante, pois sabemos como a corrupção política mina a confiança dos cidadãos, ao ponto do vitupério de que “os políticos são todos um nojo”, como diz Manuela Ferreira Leite, e faz decair a solidez das democracias.

Animado deste pensamento, é pertinente, no âmbito das comemorações em curso do Ano Brasil-Portugal, trazer à colação o antropólogo e sociólogo  brasileiro referido, cuja obra ajuda a compreender a alma brasileira e a nossa e como esta está presente de algum modo na alteridade do nosso “filho maior”.
Deixo-vos o documentário Casa Grande & Senzala, de Nélson Pereira dos Santos, que toma por base a obra homónima de Gilberto Freire:

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domingo, 7 de abril de 2013

“Da Cidade”: um poema de Alvaro Mutis sobre a memória e o esquecimento



          Quem vê à entrada da cidade
o sangue vertido por antigos guerreiros?
Quem ouve o golpe das armas
e o chuvisco noturno das mulas?
Quem guia a coluna de fumaça e dor
que as batalhas deixam ao cair da tarde?
Nem o mais miserável, nem o mais vicioso
nem o mais débil e esquecido dos habitantes
recorda algo desta história.
Hoje, quando o amanhecer cresce nos parques
o odor dos pinheiros recém cortados,
esse aroma resinoso e brilhante
como a lembrança vaga da fêmea magnífica
ou como a dor de uma besta indefesa,
hoje, a cidade entrega-se inteiramente
à sua névoa suja e aos seus ruídos quotidianos.
E, no entanto o mito está presente,
subsiste nos cantos onde os mendigos
inventam uma trêmula cadeia de prazer,
nos altares que a traça corrói
e cobre de pó com manso e terso olvido,
nas portas que se abrem de repente
para mostrar ao sol um opulento torso
de mulher que desperta entre laranjeiras
- branda fruta morta, ar vão de alcova –.
Na paz do meio-dia, nas horas do alvorecer,
nos comboios sonolentos carregados de animais
que choram a ausência das suas crias,
ali está o mito perdido, irresgatável, estéril.

Resgatando a agonia dos obscuros, poema de Alvaro Mutis



LADAINHA
Esta era a ladainha que El Gaviero recitava enquanto se banhava nas águas do delta:
Agonia dos obscuros
recolhe os teus frutos.
Temor dos ancestrais
dissolve a esperança.
Ânsia dos fracos
arrefece os teus ramos.
Água dos mortos
regula o teu leito
sino das minas
modera as tuas vozes.
Orgulho do desejo
esquece os teus dons.
Herança dos fortes
entrega as tuas armas.
Pranto das esquecidas
resgata os teus frutos.
E assim continuava, indefinidamente, enquanto o barulho das  águas afogava a sua voz e a tarde refrescava as suas carnes laceradas pelos mais variados e obscuros labores.



Nota explicativa: o personagem el Gaviero referido no poema é ficcional (tal como Macqrol) e está presente em toda a obra do escritor colombiano Alvaro Mutis. Trata-se de um velho marinheiro, rebelde e visionário, que conta as suas façanhas pelo mundo, em prosa e em verso.  

A escolha deste poema destina-se tão só a concitar a atenção do público para este grande escritor, do qual foi editada recentemente, pela Assírio & Alvim, uma antologia da sua obra poética intitulada Os versos do Navegante, com tradução de Nuno Júdice.