quinta-feira, 21 de novembro de 2013

"Possibilidades”: um poema da polaca Wisława Szymborska



 
Prefiro filmes.
Prefiro gatos.
Prefiro os carvalhos ao longo de Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievsky.
Prefiro-me gostando de indivíduos
a mim mesma amando a humanidade.
Prefiro manter uma agulha e linha à mão, em caso de precisão.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não suster
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as antigas bem alinhadas ilustrações.
Prefiro o absurdo de escrever poemas
ao absurdo de não escrever poemas.
Prefiro, quando o amor diz respeito, aniversários inespecíficos
que podem ser comemorados todos os dias.
Prefiro moralistas
que me prometem nada.
Prefiro bondade astuta ao tipo super confiante.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro conquistados a países conquistadores.
Prefiro ter algumas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas dos Grimms às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro cães com caudas descortadas.
Prefiro os olhos claros, uma vez que os meus são escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não mencionei aqui
a muitas coisas que também deixei não ditas.
Prefiro os zeros à solta
àqueles alinhados atrás de uma cifra.
Prefiro o tempo de insetos ao tempo de estrelas.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar quanto tempo e quando.
Eu prefiro manter em mente a possibilidade
de que a existência tem sua própria razão de ser.


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Educação e a reprodução social: um texto de Doris Lessing ( 2013) retirado do romance “O Caderno Dourado” (1962

Doris Lessing, pictured here in 2006, once refused to allow the queen to declare her a dame of the British Empire, because — as the author put it — "There is no British Empire."
Esta romancista inglesa, que morreu ontem, fez da literatura uma tribuna de reflexão sobre os problemas que atingem o homem atual, manifestando sempre uma posição alinhada à esquerda: foi contra o apartheid, contra o colonialismo e defensora do feminismo.
A sua obra emblemática, que lhe valeu o reconhecimento internacional, foi o romance “O Caderno Dourado”, em 1962.
Tem como protagonista uma mulher, Anna Wulf, que, em crise existencial, decide escrever quatro livros de quatro cores diferentes, cada um subordinado a um tema: no preto abordaria a vida literária; no vermelho a política; no amarelo a vida sentimental; no azul narraria episódios do quotidiano.
A estrutura de fundo em que decorrem os conflitos interiores da vida dessa mulher (trabalho, sexo, amor, maternidade e política) é a história do período em que a obra é escrita: o estalinismo, a guerra fria e a corrida aos armamentos.
É por isso que espaço ficcional desta escrita articula o exterior da história com o interior da subjetividade, como imagens que se refletem uma na outra, e cujas antinomias definem o horizonte da vida dos homens e da própria história. E são essas antinomias que interessa compreender e ultrapassar.
A educação deve ser o instrumento privilegiado na compreensão das aporias e da fragmentação do sujeito em que a história o colocou. E é esta compreensão, em que o sujeito é chamado a pensar por si próprio, que lhe cria a possibilidade de ser livre.
No excerto sobre a educação retirado deste romance, afirma-se que a educação dessa altura não tornava o sujeito livre, mas inculcava-lhe apenas a crença fraudulenta de que era livre sem o ser, uma vez que aceitava passivamente os dogmas da sua época.
Afinal, a educação servia à reprodução da ideologia, e ipso facto, dos lugares dos indivíduos na estratificação social, sendo fraudulento todo o discurso libertador que a voz corrente proclamava!
E hoje, a educação está ao serviço de quê? Da reprodução do sistema em vigor? Ou do seu questionamento radical? Que lugar reserva a educação, nomeadamente o sistema escolar, ao espírito de iniciativa individual, à reflexão crítica, ao trabalho cooperativo em vez da competição, à invenção? E que papel têm no processo de mudança, mesmo nos constrangimentos institucionais, os professores?

Eis o excerto do romance:

"Como na esfera política, ensina-se a criança que ela é livre, é uma democrata, dispondo de vontade própria e mente livre, morando num país livre, e podendo tomar suas próprias decisões. Ao mesmo tempo, ela é prisioneira das suposições e dos dogmas de sua época, que ela não questiona, porque nunca lhe disseram que eles existiam. Quando um jovem chega à idade em que precisa escolher (continuamos a aceitar sem discutir que a escolha é inevitável) entre as artes e as ciências, ele costuma escolher as artes porque julga que nesse campo há humanidade, liberdade e opção. Ele não sabe que já se emoldurou ao sistema, não sabe que a própria escolha é resultado de uma falsa dicotomia enraizada no coração de nossa cultura. Os que o percebem e que não querem submeter-se a mais padrões, tendem a ir embora, num esforço meio inconsciente e instintivo de encontrar trabalho onde eles, como pessoas, não serão divididos entre si mesmos.“

Doris Lessing, in Prefácio d "O Caderno Dourado" , Editora Record

sábado, 16 de novembro de 2013

Um poema de Óssip Mandelstam (1891-1938) contra Stalin


A virulência deste poema de Óssip Mandelstam tem um destinatário: Joseph Stalin. Publicado em 1934, valeu-lhe a prisão às ordens de Stalin, a sua obra foi banida e o seu nome foi pura e simplesmente silenciado. Em 1938, no isolamento de um campo de detenção em Verjoneij, só e faminto, morre aos 47 anos.
O poeta, que no ano a seguir à Revolução Bolchevique (1918) escreve contra “as trevas da liberdade”, intervém desde então na cena cultural e política do seu tempo, pois além de poeta, é ensaísta, crítico literário e tradutor.
Não pode ser considerado um poeta vinculado a nenhuma das linhas políticas em presença na Rússia de então, pois o seu compromisso é com a defesa irrefragável dos valores herdados da tradição clássica e da dignidade do homem: a liberdade, a vida, a criatividade.
O espírito da sua poesia, como a dos seus pares do grupo literário a que se ligou, desde 1911 (Anna Akhmátova e outros), coloca a palavra como lugar de irradiação da verdade, mediante uma conversão à terra. Em clara oposição à estética simbolista, que  usava a palavra como busca do indizivel, Mandelstam e os seus pares fazem-na gravitar em torno da história, do quotidiano, da força animal, criadora do novo  e destruidora do que é velho.
Este poema é eloquente da coragem da coragem deste grande poeta e homem, que soube colocar a verdade e arte acima do medo e da opressão. Um poeta a descobrir!
Como ele, e muitos outros ao longo da história, vencidos embora, veneremos a sua memória tornando-os vencedores!  
Nós vivemos sem perceber o país sob nós,
nossos discursos não são ouvidos a 10 passos de distância,
Mas onde há apenas uma meia-conversa
sempre nos recordamos do montanhês do Kremlin.
Seus grossos dedos são gordos como vermes,
e suas palavras seguras como fios de mundo.
Riem seus bigodes de escaravelho,
e brilham suas polainas.
Rodeia-o um bando de chefetes submissos
E ele se diverte com a servidão dos semi-homens.
Há quem assovia, quem geme, quem choraminga
se somente ele fala ou aponta o dedo.
Como ferraduras ele forja um ukaz após outro
com os quais de um ele ferra a virilha, de outro a testa,
de mais outro as sobrancelhas, de outro
ainda os olhos.
Não há execução que não seja para ele uma festa.”

(Trad. de Luís Mário Gazzaneo)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A arte do Japão: uma sensibilidade refinada à beleza do mundo, acompanhada a música de Manuel Freire

O ideal estético de “mono no aware” (expressão japonesa que significa “sensibilidade em relação às coisas”) é o princípio que comanda a criação artística e poética japonesa, no período clássico.
Consiste numa "sensibilidade” dirigida em direção ao mundo, que acolhe fenomenologicamente o real na sua verdade essencial: os objetos, os seres vivos e as pessoas constituem a matéria dessa sensibilidade.
Assim, a sensibilidade do artista, refinada por um longo trabalho de estudo e de treino, é o elemento de uma experiência total, física e espiritual, de espanto em face da beleza e do mistério das coisas, sendo a obra o resultado desse processo. E por isso é natural que uma comoção estética análoga ocorra em quem frui a obra.
As mudanças da natureza, onde a beleza se afirma para logo desaparecer, marcam esta experiência artística de uma consciência habitada por uma tonalidade emocional específica: as coisas, apesar de efémeras, ainda assim são belas.
O protótipo desta experiência são as flores de cerejeira, pois despontam em beleza na primavera, depois da desolação do Inverno, e oferecem a sua esplendorosa beleza durante alguns dias antes de morrerem.
Este valor da “mono no aware” modelou o gosto artístico cortesão, no Japão, e encontra-se enunciado na antologia poética Kokinschu (905), no prefacio do seu codificador, e que este poema da antologia exemplifica:
“Quando os cristais da neve/caem no sono as árvores e/as ervas florescem aí selvagens/ flores nunca antes vistas/sobre os ramos ou troncos na Primavera.”
Este haiku (poema japonês de três versos) de Matsuo Bashô expressa esta mesma ideia:
“O monte Fuji/apesar da neve/mesmo assim é belo”.
No campo do cinema, este mesmo aspeto encontra-se presente. Ozu é, na opinião de Wim Wenders um caso emblemático, pois expressa os sentimentos mais pelo enfoque das coisas do que pela face dos atores.