O Tempo
Abraço a espiga do tempo,
a minha cabeça é uma torre de fogo.
O que é este sangue que palpita na areia
e o que é este ocaso?
Chama do presente, o que podemos dizer?
Na minha garganta estão os fragmentos da História
e no meu rosto os sinais do sacrifício.
Que amargo é agora a linguagem!
E que estreita a porta do alfabeto!
Abraço a espiga do tempo
A minha cabeça é uma torre de fogo.
Converteu-se o amigo em carrasco?
Um vizinho disse-me: quanto tarda Hulagu a chegar!
Quem bate à porta? O cobrador de impostos?
Paga-lhe o imposto … silhuetas de mulheres
e de homens … imagens que caminham …
Trocámos sinais, intercambiámos segredos.
Os nossos passos são uma fila de mortos.
O teu morto vem do teu Senhor
ou o teu Senhor vem do teu morto?
Perdido pelo enigma, inclina-se
o arco do terror sobre os seus dias encurvados.
- Ele tinha um irmão. Desapareceu. O meu pai enlouqueceu.
Os meus irmãos morreram. A quem chamar?
Temos que abraçar a porta, suplicar ao tapete?
- Delira. Traz a caixa de rapé e cura-o com o rapé dos sábios.
Cadáveres que o assassino lê como se fossem anedotas.
O montão é um celeiro de ossos, a cabeça de um menino
ou um pedaço de carvão?
( …)
Selai estes ventos inconvenientes.
A História foi degolada
e isto não é mais do que o prelúdio.
Deixai ao verdugo, à vítima e ao sacrifício como mártires
e cobri-me com os seus restos
e desenhai-me uma ruína.
Assim arrancarei a sabedoria do seu jazigo
E gritarei: bem-vindos os meus escombros, a minha decadência.
Amanhã a morte soprar-me-á sem que me extinga,
amanhã sairei da luz para ir em direção a outra luz.
Certo de que sou mais frágil do que um fio
mas mais nobre do que um deus.
(…)
Adonis, excerto do poema “O Tempo”, in O Assédio de Beirute, 1985 . Esta tradução pessoal do excerto foi obtida a partir da espanhola, de María Luisa Prieto, que pode ver no site dedicado à poesia árabe.
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terça-feira, 26 de março de 2013
sábado, 30 de junho de 2012
Fadwa Suleiman: uma atriz desafiando o leão sírio
Tem-se destacado nas manifestações pacíficas contra o regime opressor sírio. Não ficou prisioneira do prestígio de actriz de teatro, cinema e televisão nem da sua pertença religiosa aos alauitas, que ocupam o poder. Fadwa Suleiman de todo isso abdicou para empunhar a bandeira da revolta contra a tirania, correndo todos os riscos.
A sua trajectória no teatro continha já a semente desta atitude política.
Em 2005, foi a atriz escolhida para representar o papel de uma prostituta num teatro de Damasco, na peça "Metamorfose", um original do dramaturgo sírio Saadallah Wannous, cuja obra celebrada está traduzida em alemão. Nesta peça, uma mulher da alta sociedade divorcia-se e torna-se prostituta, enquanto o seu marido, D. Juan abandonado, cai no engano de um mufti e torna-se sufi.
A dissidência protagonizada na peça tornou-se carne nesta mulher, que, com alguns dizem, é a Pasionária da revolução síria.
Tornou-se o símbolo vivo de todas mulheres árabes que lutam por um mundo diferente.
A sua trajectória no teatro continha já a semente desta atitude política.
Em 2005, foi a atriz escolhida para representar o papel de uma prostituta num teatro de Damasco, na peça "Metamorfose", um original do dramaturgo sírio Saadallah Wannous, cuja obra celebrada está traduzida em alemão. Nesta peça, uma mulher da alta sociedade divorcia-se e torna-se prostituta, enquanto o seu marido, D. Juan abandonado, cai no engano de um mufti e torna-se sufi.
A dissidência protagonizada na peça tornou-se carne nesta mulher, que, com alguns dizem, é a Pasionária da revolução síria.
Tornou-se o símbolo vivo de todas mulheres árabes que lutam por um mundo diferente.
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