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sábado, 12 de outubro de 2013

Jean-Luc Godard: quando o cinema e a filosofia se abraçam



Liberté et Patrie” (Liberdade e Pátria) é o título de uma curta-metragem que Godard realizou para a Exposição Nacional Suíça, em 2002. A extrema beleza das imagens constrói-se tendo como referente a pintura de Aimé Pache, (pintor suíço do cantão de Vaud, cujo brasão ostenta as palavras que dão o título ao filme), que é exibida em alternância com imagens reais do país. Como pano de fundo, ouve-se uma música de extrema beleza, que vem sublimar o efeito estético do olhar, pontuada pelo diálogo filosófico a duas vozes que pensam o estatuto da representação como interpretação da realidade e narram o percurso do pintor no âmbito da história em que viveu.
Assim, as imagens visuais e sonoras que impressionam a sensibilidade, e que são já em si mesmas pensamento perceptual, são retomadas no plano do discurso abstrato como materialidade significante de uma significação imanente, conceptual.
Este corpo a corpo do cinema que se faz filosofia e da filosofia que se sensorializa no cinema, é uma excelente proposta para pensarmos o que é cada uma destas artes, que só podem viver unidas numa relação material de geminalidade, em que cada uma converge na afirmação da beleza e do pensamento. Em convite à fruição do melhor cinema e à incursão na procura filosófica.
Pode ler-se aqui uma artigo sobre este tópico, pondo em diálogo Deleuze e Godard:

A Pedagogia da Imagem: Deleuze, Godard – ou como produzir um ...

Eis o filme, legendado em inglês:

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Para uma ontologia paradoxal do corpo, por Eduardo Prado Coelho: introdução

A Dança - Matisse

Prado Coelho interveio no espaço público português em vários âmbitos: na docência académica de Teoria da Literatura; na análise crítica de obras de literatura, de cinema e de dança; na intervenção cultural com artigos de opinião, com incidência na problematização da atualidade política; na criação ensaística; em comunicações de seminários; e no desempenho de funções culturais em França. 
Em 06/11/1997 teve lugar o 2º Encontro sobre o corpo “As Margens do Corpo”, na Faculdade de Motricidade Humana, tendo participado o ensaísta com a conferência “Corpo, cultura e ideologia”.

Estive presente com o Paulo Prudêncio (que no seu blog "Correntes" se referiu já a esse Encontro), a seu amável convite, e guardo uma memória grata do acontecimento. E vou procurar rememorar esse momento como tributo pessoal a Eduardo Prado Coelho, que infelizmente já não está entre nós.

Recorro para esse desiderato a alguns escassos apontamentos que guardei, explicitando a arquitetura de conjunto da conferência e descrevendo o processo seguido na sua explanação, com a resenha do seu conteúdo e das referências convocadas, que vão clarificando o horizonte de inteligibilidade sobre o corpo assumido pelo autor.

Aquela penúria obriga-me a incluir neste texto alguma passagem dos autores citados, que considere oportuna, sem distorcer ou subverter o que então foi dito. 

Sempre com recurso à citação de autores representativos do que tematizava, a conferência decorreu em três momentos principais: primeiro, focalizou as principais interpretações a que o tema tem sido sujeito; a seguir, trabalhou a relação do corpo com o espaço; finalmente, debruçou-se, sem menos detença, na relação corpo-eu.

 O orador orientou-se por um procedimento didático que facilitou a compreensão da informação fornecida e que, dada a relação feita de diferenciações, com ruturas e continuidades, entre os diferentes e singulares sistemas de significação, inculcou no auditório a noção de que a semiose do problema do corpo é um fieri, a continuar ad infinitum.

Esteve presente nesta démarche de Prado Coelho o seu dispositivo crítico, que se escora numa constelação de autores confluentes na validação da pertinência  (ontológica, epistemológica e semiótica) dos  princípios da alteridade e da diferença em detrimento da mesmidade e da unidade (Peirce, Blanchot, Deleuze, José Gil, Clarice Lispector, Duras et alii; cf. Os universos da Crítica, Cap. 18 “E tudo/o resto – é literatura”, pp. 479-526).

Neste sentido, desenharam-se duas matrizes concorrenciais em função das quais girou a exposição: a matriz fenomenológica, que se inspira em Husserl e remotamente em Descartes; e a matriz freudiana e marxista, presente em vários autores referenciados e que ocupou o maior espaço da comunicação.

 Logo no início, o conferencista fez um paralelo entre o discurso da ciência e o discurso da literatura: aquele toma o corpo como uma máquina, sendo a investigação conduzida com recurso à matemática (por ex. G. Borelli, anatomista francês do século XVIII), enquanto o segundo vê o texto literário como processo de tradução, num registo estético, do corpo nos seus vários atos expressivos de uma individualidade própria com uma determinada enquanto expressões e das várias modalidade em que se exprime (ex.: Balzac). São duas abordagens irredutíveis e desenhou-se desde logo o espaço em que o autor se iria mover: ciências humanas, filosofia e sobretudo a literatura.

Seguidamente, explicitou um conjunto de conceitos necessários para se proceder a uma reflexão ontológica sobre o corpo: ao movimento é à expressão já referidos, acrescentou o esforço e a instalação, subordinados às categorias do tempo e do espaço.

Neste horizonte, propõe a tese de Franços Dagognet: “le corps un et multiple”, que faz sua sem mais aclaramentos. A própria multiplicidade do corpo se manifesta igualmente nas várias narrativas que tematizam o corpo, referenciando aquilo a que chamou “quatro corpos”.  Na convicção, talvez, de que se possa revelar o sentido deste dito de Beckett: “Dizer um corpo. Onde nenhum. Mente nenhuma. Onde nenhuma. Ao menos isso. Um lugar. Onde nenhum. Para o corpo. Estar lá dentro. Mover-se lá dentro. E sair. E voltar lá para dentro. Não. Sair nenhum. Voltar nenhum. Só entrar. Ficar lá dentro. Em diante lá dentro. Parado”. (“Worstward ho”, Pioravante marche)

sábado, 9 de junho de 2012

Verbiário Volátil


Verbiário é o nome de um manual que dita as regras da conjugação verbal e da boa construção gramatical, no latim e em algumas línguas românicas (como o italiano e o romeno). Esta palavra passou também a designar, no português arcaico, o manual das orações do clérigo, ajuda para este voar até ao céu.

Para além desta peripécia da palavra, ela interessa-me pela sua carga polissémica – tem dentro dela o sema latino verbum, a palavra (pois é esta a sua a principal substância ) e diário, que dá conta da experiência de cada dia. E interessa-me também por trazer de volta à vida um lexema, que caiu em desuso na nossa língua, e por este reenviar para a filiação latina da nossa cultura.

Volátil é o que sobe nas nuvens, como um bailarino, porque tudo o que nele se diga tem uma solidez que se pode dissolver em fumo, e pode planar até ao desastre por se aventurar a não ponderar as risco das condições do voo, falhar, por imperícia, o manuseio da equipagem ou por se aventurar a espaços siderais muito longínquos.

Se conseguir articular o discurso e elevá-lo ao plano do pensamento terei alcançado o objetivo. O escrutínio livre do comentário dos leitores é um elemento fundamental àquele desiderato.

De todos os que, no ato da escrita, se elevaram ao plano do pensamento, criando conceitos, perceptos ou afetos (Deleuze), sinto-me discípulo. A comensalidade habituar-me-á a escutar o canto estrídulo e prolongado, acridoce, da ave sagrada, que me ajudará  a dissolver o encantamento do canto das sereias que andam pelo mundo.   

 Marcel Mauss, Lévi-Strauss, Cornelius Castoriadis, Emmanuel Lévinas, et alli  são alguns mestres. Dele  respigarei uma axiomática, que funcionará como pano de fundo do discurso a construir, o meu verbário de bolso.