sábado, 5 de janeiro de 2013

Amor absoluto segundo Mallarmé


Rondó II

Se tu quisere’s amar-nos-emos
com os teus lábios sem o dizermos
Mas esta rosa não imterrompas
Pior seria logo o silêncio

Prontos os sonhos que nunca rompem
Sobre o sorriso quando cintila
Se tu quisere’s amar-nos-emos
com os teus lábios sem o dizermos

Mudo se torna tudo em redondo
no purpurado silfo imp´rial
Flamejante o beijo que espedacemos
até à ponta de cada asa
Se tu quisere’s amar-nos-emos

Stéphane Mallarme, “Rondels II”, Poésies, 1913





Cântico do Amor, por Fiama Hasse Pais Brandão



Marc Chagall, Cântico dos cânticos, V 1965-66
Chagall

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como chuva que cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

Fiame Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas, Relógio d´Água, 2000

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Não posso adiar o amor, António Ramos Rosa



Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.



Passar fome, por Brecht: o intolerável

Interrogado sobre a sua pátria, o senhor K. respondeu assim: "Em qualquer lado posso passar fome." E alguém que o ouvia com muita atenção perguntou por que falava em passar fome se tinha realmente que comer. O senhor K. justificou-se, dizendo: "É provável que eu tenha querido dizer que posso viver em qualquer lado se quiser viver onde reina a fome. Admito que haja uma grande diferença entre alguém passar fome e viver onde reina a fome. Permitam-me, porém, alegar como desculpa que viver onde reina a fome talvez seja para mim menos grave do que sofrê-la, mas não deixa de ser muito grave. Para outros talvez não tenha importância que eu passe fome, mas opor-me ao facto de a fome reinar, sim, é importante.”

Bertolt Brecht, Histórias do Senhor Keuner, p. 25, Hiena Editora

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

“Medidas contra a violência”, um conto filosófico de Brecht


Bertolt  Brecht é o criador de um misterioso personagem que figura em vários contos escritos ao longo de trinta anos: o senhor Keuner. São textos curtos (são raros os que ultrapassam uma página) que nos apresentam esse sábio pouco convencional, que usa a ironia filosófica como estratégia de corrosão das ideias dominantes (Propriedade, Indivíduo, Nação, Deus, Bondade, Honestidade, violência). Fazendo-as colidir com a realidade, desperta o sono dogmático do espectador, obrigando-o a abrir-se a um questionamento que o prepara para uma atitude prática.
Repare-se, no conto que se transcreve, como a prática desmente a teoria. A contradição despertará no espetador da peça uma atitude crítica, que o disporá a uma tomada de posição consequente.  Eis o conto:


 Quando o senhor Keuner, o Pensador, se pronunciou contra a violência numa grande sala cheia de gente, reparou que as pessoas começaram logo a recuar e a sair. Voltou-se e viu de pé, atrás de si (…) a Violência.

“O que dizias tu?”, perguntou-lhe a Violência.

“Pronunciava-me a favor da violência” , respondeu o senhor Keuner.

Quando o senhor Keuner saiu, os seus alunos quiseram saber o que era feito da sua coragem. O senhor Keuner respondeu:

“A coragem que tenho não chega para me deixar açoitar. Isto porque preciso de mais longa vida do que a violência.”

E contou a seguinte história:

“Um dia, nos tempos da ilegalidade, em casa do senhor Egge, que tinha aprendido a dizer “não”, apareceu um agente com um documento assinado pelos que reinavam na cidade, dizendo que todo o domicílio onde o portador pusesse o pé passaria a ser propriedade sua; de igual forma, também passaria a pertencer-lhe a comida que reclamasse, e todo o homem que se cruzasse com ele passaria a estar ao seu serviço.
O agente instalou-se numa cadeira, pediu comida, lavou-se, deitou-se e, com o rosto voltado para a parede perguntou, pouco antes de adormecer: “Estás disposto a servir-me?

O senhor Egge tapou-o com uma manta, afugentou as moscas, ficou de vigília enquanto ele dormia e continuou a obedecer-lhe durante sete anos. Não obstante tudo o que lhe fez, houve uma coisa de que se absteve sempre: pronunciar uma palavra, fosse ela qual fosse. O agente, que engordara de tanto comer, dormir e mandar, passados sete amos morreu. O senhor Egge embrulhou-o, então, na manta já gasta, arrastou-o para fora de casa, limpou a cama, caiou as paredes, respirou fundo e respondeu:Não!”

Bertolt Brecht, Histórias do Senhor Keuner, Hiena Editora, pp.17-8



Mensagem de Bento XVI sobre o Dia Mundial da Paz: a justiça social e a promoção de uma educação ao serviço das pessoas são condições necessárias do edifício da paz

BEM-AVENTURADOS OS OBREIROS DA PAZ

(…)  Construir o bem da paz através de um novo modelo de desenvolvimento e de economia
5. De vários lados se reconhece que, hoje, é necessário um novo modelo de desenvolvimento e também uma nova visão da economia. Quer um desenvolvimento integral, solidário e sustentável, quer o bem comum exigem uma justa escala de bens-valores, que é possível estruturar tendo Deus como referência suprema. Não basta ter à nossa disposição muitos meios e muitas oportunidades de escolha, mesmo apreciáveis; é que tanto os inúmeros bens em função do desenvolvimento como as oportunidades de escolha devem ser empregues de acordo com a perspetiva duma vida boa, duma conduta reta, que reconheça o primado da dimensão espiritual e o apelo à realização do bem comum. Caso contrário, perdem a sua justa valência, acabando por erguer novos ídolos.
Para sair da crise financeira e económica atual, que provoca um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos, instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para fazer da própria crise uma ocasião de discernimento e de um novo modelo económico. O modelo que prevaleceu nas últimas décadas apostava na busca da maximização do lucro e do consumo, numa ótica individualista e egoísta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta às exigências da competitividade. Olhando de outra perspetiva, porém, o sucesso verdadeiro e duradouro pode ser obtido com a dádiva de si mesmo, dos seus dotes intelectuais, da própria capacidade de iniciativa, já que o desenvolvimento económico suportável, isto é, autenticamente humano tem necessidade do princípio da gratuidade como expressão de fraternidade e da lógica do dom. [5] Concretamente na atividade económica, o obreiro da paz aparece como aquele que cria relações de lealdade e reciprocidade com os colaboradores e os colegas, com os clientes e os usuários. Ele exerce a atividade económica para o bem comum, vive o seu compromisso como algo que ultrapassa o interesse próprio, beneficiando as gerações presentes e futuras. Deste modo sente-se a trabalhar não só para si mesmo, mas também para dar aos outros um futuro e um trabalho dignos.
No âmbito económico, são necessárias – especialmente por parte dos Estados – políticas de desenvolvimento industrial e agrícola que tenham a peito o progresso social e a universalização de um Estado de direito e democrático. Fundamental e imprescindível é também a estruturação ética dos mercados monetário, financeiro e comercial; devem ser estabilizados e melhor coordenados e controlados, de modo que não causem dano aos mais pobres. A solicitude dos diversos obreiros da paz deve ainda concentrar-se – com mais determinação do que tem sido feito até agora – na consideração da crise alimentar, muito mais grave do que a financeira. O tema da segurança das provisões alimentares voltou a ser central na agenda política internacional, por causa de crises relacionadas, para além do mais, com as bruscas oscilações do preço das matérias-primas agrícolas, com comportamentos irresponsáveis por parte de certos agentes económicos e com um controle insuficiente por parte dos Governos e da comunidade internacional. Para enfrentar semelhante crise, os obreiros da paz são chamados a trabalhar juntos em espírito de solidariedade, desde o nível local até ao internacional, com o objetivo de colocar os agricultores, especialmente nas pequenas realidades rurais, em condições de poderem realizar a sua atividade de modo digno e sustentável dos pontos de vista social, ambiental e económico.

Educação para uma cultura da paz: o papel da família e das instituições
6. Desejo veementemente reafirmar que os diversos obreiros da paz são chamados a cultivar a paixão pelo bem comum da família e pela justiça social, bem como o empenho por uma válida educação social.
Ninguém pode ignorar ou subestimar o papel decisivo da família, célula básica da sociedade, dos pontos de vista demográfico, ético, pedagógico, económico e político. Ela possui uma vocação natural para promover a vida: acompanha as pessoas no seu crescimento e estimula-as a enriquecerem-se entre si através do cuidado recíproco. De modo especial, a família cristã guarda em si o primordial projeto da educação das pessoas segundo a medida do amor divino. A família é um dos sujeitos sociais indispensáveis para a realização duma cultura da paz. É preciso tutelar o direito dos pais e o seu papel primário na educação dos filhos, nomeadamente nos âmbitos moral e religioso. Na família, nascem e crescem os obreiros da paz, os futuros promotores duma cultura da vida e do amor. [6]
Nesta tarefa imensa de educar para a paz, estão envolvidas de modo particular as comunidades dos crentes. A Igreja toma parte nesta grande responsabilidade através da nova evangelização, que tem como pontos de apoio a conversão à verdade e ao amor de Cristo e, consequentemente, o renascimento espiritual e moral das pessoas e das sociedades. O encontro com Jesus Cristo plasma os obreiros da paz, comprometendo-os na comunhão e na superação da injustiça.
Uma missão especial em prol da paz é desempenhada pelas instituições culturais, escolásticas e universitárias. Delas se requer uma notável contribuição não só para a formação de novas gerações de líderes, mas também para a renovação das instituições públicas, nacionais e internacionais. Podem também contribuir para uma reflexão científica que radique as atividades económicas e financeiras numa sólida base antropológica e ética. O mundo atual, particularmente o mundo da política, necessita do apoio dum novo pensamento, duma nova síntese cultural, para superar tecnicismos e harmonizar as várias tendências políticas em ordem ao bem comum. Este, visto como conjunto de relações interpessoais e instituições positivas ao serviço do crescimento integral dos indivíduos e dos grupos, está na base de toda a verdadeira educação para a paz.
Uma pedagogia do obreiro da paz
7. Concluindo, há necessidade de propor e promover uma pedagogia da paz. Esta requer uma vida interior rica, referências morais claras e válidas, atitudes e estilos de vida adequados. Com efeito, as obras de paz concorrem para realizar o bem co­mum e criam o interesse pela paz, educando para ela. Pensamentos, palavras e gestos de paz criam uma mentalidade e uma cultura da paz, uma atmos­fera de respeito, honestidade e cordialidade. Por isso, é necessário ensinar os homens a amarem-se e educarem-se para a paz, a viverem mais de benevolência que de mera tolerância. Incentivo fundamental será «dizer não à vingança, reconhecer os próprios erros, aceitar as desculpas sem as buscar e, finalmente, perdoar »,[7] de modo que os erros e as ofensas possam ser verdadeiramente reconhecidos a fim de caminhar juntos para a reconciliação. Isto requer a difusão duma pedagogia do perdão. Na realidade, o mal vence-se com o bem, e a justiça deve ser procurada imitando a Deus Pai que ama todos os seus filhos (cf. Mt 5, 21-48). É um trabalho lento, porque supõe uma evolução espiritual, uma educação para os valores mais altos, uma visão nova da história humana. É preciso renunciar à paz falsa, que prometem os ídolos deste mundo, e aos perigos que a acompanham; refiro-me à paz que torna as consciências cada vez mais insensíveis, que leva a fechar-se em si mesmo, a uma existência atrofiada vivida na indiferença. Ao contrário, a pedagogia da paz implica serviço, compaixão, solidariedade, coragem e perseverança. (…)