sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ordoliberalismo: política económica sem futuro?

Röpke
Erhard












A doutrina do “ordoliberalismo” é a variante alemã do liberalismo, que estabelece  que  a política económica assenta no conceito central “a economia social de mercado”(Soziale Markwirtschaft), caracterizado pelo mercado concorrencial, a livre iniciativa e a justiça social.
Foi construída a partir dos anos 30, 40 e 50 por vários académicos da Escola de Friburgo (Eucken, Röpke, Böhm) e, no período da restauração da Alemanha após a segunda guerraMundial, foi adoptada pelos políticos de então (Erhard e Adenauer)  com sucesso, conduzindo  ao que é conhecido pelo”milagre alemão”.
As recomendações saídas num Conselho Científico (os académicos de Friburgo) criado (em Abril de 1948) pelo poder para elaborar um relatório sobre as linhas de política económica a seguir foi assumido de imediato por Erhard (vice-Chanceler e responsável da pasta da Economia) no discurso de  28 de Abril de 1948,  quando diz:

“Como as coisas estão hoje, o Estado deve providenciar a economia com os princípios e linhas gerais de uma política e com objectivos desenhados para guiar e regular o seu funcionamento.
A este respeito, o Estado tem e deve ter a iniciativa. Mas ir mais além e reduzir o homem de negócios independente ao estado de uma mera marioneta ou servente da vontade da autoridade seria destruir todos os valores derivados da personalidade e roubar a economia da sua mais valiosa fonte de inspiração e força. Agora, se nunca, é a altura de compreender que a economia não é oposta ao progresso social mas, pelo contrário, trata-o como uma régua.
Todos os passos capazes de contribuir para uma honesta distribuição do produto nacional, e com isso do rendimento nacional, merecem a nossa consideração cuidadosa. Então, temos assim a possibilidade de fazer isto mesmo através do preciso acto de honrar as obrigações que emanam da aflição do nosso país, se apenas colocarmos a actualidade antes do dogma.”

Em resumo, e ainda nas palavrasde Erhard:  
“é preciso libertar a economia dos constrangimentos do Estado  (sendo por isso que)  o Conselho é da opinião que a função de direcção do processo económico deve ser assegurado o mais largamente possível pelo mecanismo dos preços.”
(Excertos da obra “The Economics of Success”, do ex-Chanceler da República Federal da Alemanha, Ludwig Erhard, publicado em 1963).

Assistimos hoje em círculos políticos e académicos, e depois da letargia cinquentenária do ordoliberalismo, à sua paulatina  redescoberta, começando a ser objecto  de estudo  e de debate, de modo a avaliar as suas potencialidades e os seu limites práticos como instrumento de resposta  à crise que nos atinge.
A própria Angela Merkel e Mario Monti consideram que o ordoliberalismo pode funcionar como bússula para a construção de uma moldura constitucional para uma economia e sociedades livres, tanto no plano nacional como internacional, para o benefício de todos os cidadãos. (cf. Discurso de Merkel em Feiburgo, a 23 de Fevereiro de 2011). Matéria nada consensual, até mesmo na nossa praça, com os seus defensores, como Vital Moreira, e os seus detratores, como  João Rodrigues.

Em jeito indicativo, deixo dois textos teóricos sobre a matéria: "ElOrdoliberalismo alemán y la Economía Social de Mercado"  e Economia Social de Mercado para a Europa?"

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Reduzir a dívida: Critérios teóricos


Que estratégia seguir para reduzir a despesa e viabilizar o equilíbrio orçamental? 


Sobre esta questão, temos duas orientações teóricas de resposta: 

a) - a que se filia na corrente neoclássica da economia:  preconiza que a decisão das políticas públicas se deve basear em critérios exclusivamente económicos, usando como instrumento de avaliação a análise custo-benefício (ACB), segundo o qual o valor de todos os bens é redutível a uma única unidade de medida;

b) - a defendida por autores relevantes da ciência económica (Polany, Amartya Sen, Arrow,..): sendo a economia um caso particular da sociedade no seu conjunto, a decisão não se pode basear exclusivamente naquele instrumento de avaliação, porque ele ignora que o valor que os indivíduos atribuem a certos bens relevantes (saúde, educação ambiente…) não pode ser redutível a uma única unidade de medida sem danificar a apreciação que cada um faz sobre o valor desses bens.  

Ainda que a despesa seja o problema financeiro com que nos debatemos e que os cortes sejam necessários, é preciso não desfocar o lugar (serviços, EPP, estrutura do Estado, funções sociais do Estado) onde isso é indispensável e necessário.

A decisão a tomar pelos poderes públicos para reduzir a dívida  não se pode basear em critérios exclusivamente económicos, não apenas porque a teoria económica não está democraticamente legitimada, mas porque a pertinência teórica desses critérios é limitada no seu alcance explicativo, preditivo e produtivo.

A decisão onde cortar, necessária, tem de ser tomada com base numa metodologia económica abrangente, onde a importância dos bens relevantes seja tomada em consideração como elemento fundamental, de modo a que o provérbio popular faça sentido: "não atiremos fora o bebé com a água do banho". 

Assim, a decisão não decorre da simples racionalidade económica estrita, pois, dada a importância, complexidade e incerteza do que aí se joga, ela tem de assentar numa deliberação política. Com a incorporação dos contributos da análise económica e com as  ponderações e os consensos trazidas à colação pela racionalidade do debate político.

Porquê?



“Isto são vidros a partir. Não estás a ouvir os estilhaços a cair? Olha, agora são pedras atiradas às paredes e à porta de ferro da loja. Agora são as pessoas a rir. Porquê? E agora são os soldados a cantar.”
(excerto de: Os Cães e os Lobos, de lrène Némirovsky, Relógio d’Água)


O trecho descreve um pogrom antijudaico durante a Ocupação nazi de França. A enunciação em discurso direto indica a existência de uma clivagem interna entre o acontecimento e os seus intervenientes e alguém que, do exterior, o viveu e agora o narra, a própria autora.
A pergunta, na sua crueza, esbarra como um vazio ininteligível à espera de uma resposta contra a violência gratuita e jubilosa dos sodados e das “pessoas” que com eles são coniventes.
Mas jamais terá uma resposta porque a essência das perseguições e do seu desfecho no Holocausto representam um limite a toda a teoria.
Duas palavras sobre o romance.
O título do livro, publicado em 1940 na língua francesa, indica dois grupos de judeus, de diferentes geografias e com atitudes distintas relativamente à assimilação: “os cães” são os que residem nos subúrbios da moda e que se esqueceram das suas origens; “os lobos” sãos os judeus de Leste que procuram conservar as suas raízes e manter as suas tradições.
O tema da obra é a assimilação dos judeus, mas estruturado a partir de uma situação amorosa triangular. A questão da assimilação era relevante para qualquer judeu por várias razões: a expressão numérica dos judeus em França (cerca de um milhão); o antissemitismo era latente na sociedade francesa, desde o caso Dreyfus, pelo menos.
Os três personagens do livro são jovens, com relações familiares, a residir num gueto: Ada, Ben e Harry
Ada, a personagem central, é uma pintora introvertida. Num primeiro momento é submissa, mas depois tona-se decidida. Vivendo uma relação amorosa triangular e especular: ela deseja um primo longínquo, idealizado (Harry), e um primo com quem ela foi educada (Bem) deseja-a a ela.
 Os dois primos são fisicamente uma cópia um do outro mas são moralmente opostos. Ada opta então pelo primo Harry, sabendo que opta por um amor romanesco que não lhe traz alegria mas serenidade. Mas por outro lado, a comum educação com o primo que rejeitou, faz com que ela se case com ele.
Ada considera que a escolha a fazer no plano cultural – ser judia ou francesa - tem de se fundamentar nas razões da educação e da tradição e não do amor. Por isso, escolhe o lado dos lobos. Harry sente que a assimilação lhe será conveniente, materialmente, mas sente-o como uma traição, uma máscara que lhe vem ferir a sua carne, a sua matriz cultural.   
Esta história de amor dividido e infeliz é afinal a história do povo judeu: cindido entre uma memória com a qual comunica em espelho, imaginariamente, e obrigado a viver em contragosto uma conformidade a uma tradição cultural alheia.
Pode ler-se online um trabalho de análise, em francês, da autoria de Ana Fernandes, da Universidade do Porto.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

"O leitor tem apenas de ver e de ouvir",Irène Némirovsky


A frase do título consta no Caderno da judia Irène Némirovsky, nas notas manuscritas sobre o estado da França durante a Ocupação pelos nazis, no âmbito do seu projeto de escrita do romance Suite française.
Este fato revela que a autora tinha a intenção de dar a ver, na obra que estava a escrever, os acontecimentos desse período de exílio e de extermínio dos judeus.
Por esta razão, a obra é um testemunho de uma testemunha repassado de pungente verdade humana, pela vivência inerente à imersão da autora no espaço e no tempo do vórtice da destruição.
Quem foi Irène Némirovsky?
Nascida em Kiev em 1903, Irène Némirovsky era filha dum banqueiro ucraniano e foi forçada ao exílio após a Revolução Russa. Quando, depois de meses de peregrinação pela Finlândia e Inglaterra, chega a França, desejou virar a página e fruir a existência.
Amante da literatura, publicou em 1929 o seu primeiro romance, David Golder, tendo imediato reconhecimento por parte de vários escritores da época: Jean Cocteau, Françoise Sagan, Drieu La Rochelle… Outras obras se seguirão.
Tomando consciência de que a espada de Dâmocles se iria abater sobre a sua cabeça, decide continuar a escrever como testemunho do que observa à sua volta e do que ela própria experiencia.
É assim que nasceu o seu romance Suite française, que permaneceu manuscrito até ser descoberto em 1975, sendo depois publicado em 2004 por iniciativa de uma das filhas, Denise Epstein.
A primeira parte, “Tempestade em junho”, é uma narrativa que apresenta a odisseia de várias famílias em fuga, descrevendo as relações sociais entre os personagens e as suas diferentes maneiras de estar e valorar: o fanatismo, a ganância, o culto da aparência, o egoísmo, o esteticismo, a inocência…
A segunda parte da Suite française, “Dolce”, situa-se no espaço de uma aldeia ocupada. As relações e os sentimentos de ocupantes e de ocupados são passados em revista: há repulsa misturada com fascínio de ambos os lados, o gozo sádico de desejar a morte do outro na sua diferença é a nota dominante.
Irène Némirovsy viria a morrer gazeada em Auschwitz, em Agosto de 1942. Permanece o seu testemunho dilacerante para que a memória do irreparável nos continue a desafiar à construção de um mundo onde cada homem, por estar no rastro da transcendência, nos obriga a respeitar de modo efetivo todos os seus direitos inalienáveis.
A obra encontra-se publicada pela Companhia das Letras. Reenvio para o seu site, onde se pode ler o seguinte trecho .

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Shoah: um verme que rói o mundo, segundo Celan


UMA CANÇÃO NO DESERTO

(...)
EM VÃO desenhas corações na janela: 
o Duque do Silêncio 
arregimenta soldados no pátio do castelo. 
Iça na árvore o seu estandarte - folha que azula quando o outono entra; 
distribui pelo exército as folhas de erva da melancolia e as flores do tempo; 
com pássaros no cabelo parte a enterrar as espadas. 
Em vão desenhas corações na janela: há um deus entre as legiões, 
envolto no manto que um dia te caiu dos ombros sobre as escadas,  de noite, 
um dia, quando em chamas o castelo se erguia, quando falavas
 como falam os homens: Amada...
Ele não conhece o manto e não invocou a estrela e segue aquela folha
ondeando à sua frente. 
"oh, folha de erva", julga ele ouvir, "oh, flor do tempo"

Paul Celan, Papoila e Memória, 1952



domingo, 4 de novembro de 2012

Acarnenses: a farsa da democracia segundo Aristófanes


Acarnenses é a primeira comédia escrita por Aristófanes, encenada em 425a.C. Ela traça um retrato caricatural da cidade de Atenas, num período de crise das instituições democráticas diretamente relacionada com a guerra do Peloponeso (431-404).
O título da peça refere-se aos habitantes do demos de Acarnas, ex-combatentes da Maratona, que tinham apoiado a guerra contra Esparta por as suas terras terem sido saqueadas pelos guerreiros lacedemónios.
O carácter didático do texto é expresso pelo próprio autor: «O que é justo também é do conhecimento da comédia. Ora o que eu vou dizer pode ser cáustico, mas justo é.” 
Uma marca deste caráter didático pode ver-se nos nomes de alguns personagens, que têm uma significação alegórica: Diceópolis, o personagem principal, significa cidade justa; Anfíteo é um nome divino.
O Coro vai modulando a sua posição ao longo do desenvolvimento da intriga, vindo a reconhecer o serviço que o poeta prestou à comunidade, ao provar o valor da democracia para as cidades e ao pôr a nú os maus costume de que ela enferma. 
O eixo central da comédia é a relação entre o público e o privado, alimentada pela disputa entre belicistas e pacifistas quanto à guerra, pelo que a sua mensagem é política, sendo o povo ateniense representado como um bando de loucos e a democracia como uma farsa.
A peça começa com Diocépolis, um camponês forçado a migrar para a cidade onde vive em condições precárias, qua aguarda a reunião da asssembleia onde o tema da discussão de um tratado de paz vai ser deliberado.
 Vendo a praça vazia, lamenta a não participação do povo na reunião da assembleia , ficando a decisão entregue nas mãos de políticos profissionais, por regra demagogos, revelando uma contradição do sistema democrático: os destinos da comunidade, cujo governo pertence a todos (público) fica, afinal, entregue ao cuidado de poucos (privado), deixando a porta aberta a todo o arbítrio e venalidade.
Começada a assembleia, Anfíteo faz essa proposta, mas é rechaçado com ordem de prisão.  Diceópolis tenta reverter a situação, mas sem sucesso, dizendo:
“senhores prítanes, prejudicais o interesse da assembleia ao expulsar esse homem que deseja concertar uma paz conveniente e fazer que suspendais os escudos.”
Neste breve momento em que apenas dois indivíduos se manifestam a favor da discussão de um problema central no contexto ateniense, agindo no interesse do bem comum da cidade, é logo apagado, abafado pelo conselho que desviará a sua atenção para os embaixadores que chegam da Pérsia.
Diceópolis protagoniza a voz da razão numa sociedade dominada por loucos e safados: estes teimam em alimentar a guerra com Esparta como pretexto para enriquecerem à sua custa, ficando ele cada vez mais miserável e pobre. 
Diceópolis desmascara de seguida a função das missões diplomáticas persas, na figura de Pseudartabas, como fraudes, pois vêm prometer ouro, com a conivência dos embaixadores atenienses, como manobra de diversão apenas. 
Com efeito, a sua ostentação à custa dos dinheiros públicos, que contrasta com a pobreza da maioria dos cidadãos, desmente a veracidade da proposta que fazem: por isso, é com palavras acerbas - “cus moles”- que os incita a não caírem no logro.
Diceópolis é então silenciado, a reunião é suspensa e irá fazer-se à porta fechada no Conselho (Pritaneu).  Com este estratagema, o direito de todos participarem na tomada de decisão é abolido, confinando a decisão política ao segredo dos gabinetes.
Compreendendo que a guerra não lhe convém, Diceópolis conclui uma paz privada com o inimigo, libertando-se da loucura da cidade. Assim, fugindo de uma ordem pública corrompida, procura um espaço em que possa ser o senhor absoluto de si próprio. 
Os acarnenses ficam enfurecidos ao descobrirem que Diceópolis fez um acordo de paz com os lacedemônios, apedrejando-o.
Então ele tenta, com palavras sensatas, expor as suas razões, defender-se das acusações que lhe são movidas, mas o seu direito de defesa é contestado com ameaças de ainda maior violência por parte do coro dos acarnenses:
“Coro: Raios me partam, se te dou ouvidos!
Diceópolis: Por favor, Acárnicos!
Coro: Vais morrer, já sabes, e agora mesmo.”
A democracia encontra-se subvertida na sua essência quando a violência imperante impede que o critério de resolução dos conflitos seja resolvido com recurso à livre discussão, em condições igualitárias, no espaço público. É o que está acontecendo: primeiro, na assembleia;  depois  é-lhe negado o direito de defesa contra as acusações dirigidas a um cidadão; finalmente é silenciado e suspensa a sua proposta de discussão. 
Diceópolis então, assumindo o risco de morte, proclama o que julga ser justo para a cidade e denuncia a retórica fraudulenta dos oradores que conquistam o povo com o sortilégio encantatória do seu discurso:
“Diceópolis: (...) Conheço bem a maneira de ser dos nossos aldeões, sei o prazer que sentem em ouvirem gabar-se a si próprios e à cidade, por um parlapatão qualquer, com razão ou sem ela. São estes elogios que os impedem de ver que estão a ser levados. “
A parte final da peça apresenta-nos Diceópolis reconciliado com os acarnenses e a desfrutar uma situação económica favorável, onde há lugar para o desfrute dos prazeres do mundo:
 “O primeiro semicoro: Não vedes, cidadãos a extremada prudência e discrição deste homem, que, depois de ter celebrado as suas tréguas, pode comprar quantas coisas costumam trazer os mercadores, umas úteis à casa e outras gratíssimas ao paladar?”
Este espaço de vida não admite no seu seio corruptos, todos os que simulam servir a cidade mas que servem os seus interessas privados. Enquanto microcosmo de uma totalidade, pode ser interpretado como uma sinédoque cuja significação reenvia para o horizonte da cidade democrática.
A potência heurística desse espaço, onde mora a vida honesta, livre e feliz, leva o coro a reconhecer, por fim, que o tratado de paz é o mais justo para a cidade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Civilizar a economia de mercado


 O Estado de Direito dos regimes democráticos assenta no postulado político-liberal da neutralidade e da imparcialidade da ordem social em relação aos diversos projetos de vida.
A lógica de mercado que domina nas sociedades do capitalismo tardio, a qual teve a sua consagração epistemológica  a partir das teorizações da escola neoclássica, (von Mises, Hayek et alii), enraíza-se num determinismo económico, que se caracteriza por um individualismo económico estrito e pela ideia correspondente de uma sociedade de mercado total, assente apenas numa lógica do interesse mútuo.
Assim, a lógica de mercado, na sua pretensão de hegemonizar tendencialmente todo o espaço social, impondo-lhe a sua forma particular de vida empresarial visando o sucesso económico traduzido em lucro, entra em rota de colisão com o postulado político-liberal do Estado de Direito.
Esta violação do princípio liberal pela ficção utilitária do bem comum inerente ao liberalismo económico foi justificada por John Rawls na sua “Teoria da Justiça”, quando apresenta o seu princípio  de justiça básico: “Cada um tem o mesmo direito ao mais extensivo sistema global de liberdades fundamentais iguais, que a todos seja possível.”
Uma sociedade livre não pode nem deve ser pensada como uma sociedade de mercado: é necessário integrar a lógica do mercado na estrutura fundamental de uma sociedade liberal e subordiná-la à política.
Como se alcança este objetivo de “civilizar” a economia de mercado”?
Como pressuposto da consecução desta tarefa, é preciso fazer uma “crítica da razão política”, de modo a expurgar dela as suas presunções ilegítimas – como pensar a política como a esfera do geral perante a particularidade imperante na sociedade, à maneira de Hegel e epígonos - e a legitimar as suas pretensões necessárias no quadro das sociedades complexas e interdependentes em que hoje vivemos.
Tive presente neste escrito:
-o artigo de Peter Ulrich “Para uma socioeconomia prática”, pp. 173-196, in Revista Portuguesa de Filosofia, A Civilização da Economia e as Respostas da Filosofia: sobre a pertinência e a praxis do saber”, Tomo 65, 2009, fasc. 1-4);
- Daniel Innerarity, ATransformação da Política, Ed. Teorema, 2002. 

domingo, 14 de outubro de 2012

Bananas à tiracolo colonial



Jean-Paul Pougala (2012-03-03)

(...)

Assim, desde o Tratado de Roma, a banana se revela instrumento de controle geoestratégico sobre os Estados africanos, mesmo que em seguida estes tivessem suas independências reconhecidas pelos seus opressores. E diante do fato de que em 1960 a França seria obrigada a reconhecer a independência dos três primeiros países, tudo seria articulado para que fossem as populações francesas dessas ex-colônia as donas das plantações de banana, orientando-se as populações locais para cultivos muitíssimo menos rentáveis, como o algodão, o café e o cacau. Veremos doravante indicadores sobre:

A - A RENTABILIDADE DA BANANA:

A banana é a fruta mais rentável do mundo por que sua colheita é semanal e durante todo o ano. Sua rendimento efetivo passa de 20 toneladas por hectare no caso da banana orgânica no Senegal – segundo cifras fornecidas pela APROVAG,. a organização de produtores APROVAG, Tambacounda do Senegal – chegando a 60 toneladas por hectare nas estufas marroquinas segundo cifras fornecidas pelo Instituto Agronômico e Veterinário Hassan II de Rebat, em Marrocos. O cacau, em comparação, produz 300 kg por hectare, segundo cifras fornecidas pelo CNRA (Centre National de Recherche [Pesquisa] Agronomique de Cote d’Ivoreire [Costa do Marfim]) tornados públicos pelo Sr. Lancine Bakayoko em 27/10/2009, ou seja, devido a escolhas erradas de economistas e políticos costa marfinenses após sua pseudo-independência, um agricultor marfinense da cacau é 200 vezes mais pobre do que um agricultor marroquino de banana. A comparação se mostra ainda mais desfavorável no caso do café. Segundo seriíssimo estudo realizado entre 1969 e 1982 pelo IRCC (Institute de Recherches du Café et du Cacao de Côte d’Ivoire) na região de Gagnoa se obtém uma média poderada de 180 kg de café por hectare, isto significa que os economistas e políticos marfinenses conscientemente reduziram os camponeses a uma miséria 333 vezes pior do que a dos seus homólogos, os camponeses marroquinos. A mesma situação, em condições quase idênticas, é observada em toda a parte da África subsaariana

B - A GEOESTRATÉGIA DA BANANA

A banana é a fruta mais consumida no mundo. Segundo cifras fornecidas pelo Mundo Diplomático do mês de outubro de 1996, por Ghislain Laporte, produzia-se então 52 milhões de toneladas dessa fruta (e 100 milhões de toneladas em 2011). E os dois principais produtores, China e Índia, consomem a totalidade de suas produções. Os 11 milhões de toneladas restantes seguem para o marcado internacional, e 4 milhões de toneladas vão para a União Europeia. Desse montante 2/3 são controlados por duas multinacionais norte-americanas, a United Brands Company (marca Chiquita) e a Castel 7 Cooke (marca Dole) e por uma mexicana, a Del monte.

O que é detestável nestas cifras são dois elementos essenciais:

1- A totalidade dos 79 países da chamada ACP (África Caribe e Pacífico) à qual a União Europeia acena com uma “vantagem” incontestável pela Convenção de Lomé, custam a fornecer o dobro (857.000 toneladas) das minúsculas ilhas espanholas das Canárias (420.000 toneladas). Penam também para fornecer 4 vezes mais do que a pequeníssima Martinica, ilha de 1.100 km² e 382.000 habitantes que fornece à EU 220.000 toneladas de banana contra os 802 milhões de toneladas dos africanos subsaarianos (cifras de 2007).

2- E o pior: a quantidade produzida pelos 79 países da ACP é um terço da quantidade enviada à EU pela América do Sul a qual não se beneficia de qualquer dessas convenções, mas produz 2,5 milhões de toneladas. Destes dois pontos sobressai uma vontade: desviar a África das produções rentáveis como a banana que, segundo essa lógica puramente colonialista (mesmo depois de 50 anos do reconhecimento da independência africanas pelo Ocidente), devem ser reservadas exclusivamente aos ocidentais, mesmo que produzida em solo africano. O erro dos governantes africanos tem sido o de permanecer nessa lógica colonialista de acreditar não existir outra verdade no mundo senão aquela proveniente da União Europeia, atitude conducente à total passividade pela crença de que não existe outro mercado. E aos anestesistas responsáveis por tal passividade juntam-se as Organizações não Governamentais (ONGs) ditas ecológicas na sua ostentação de urgência em salvar a floresta africana, contudo o verdadeiro papel destas é o de impedir os africanos de explorarem o seu espaço vital pelo cultivo de inúmeras produções bananeiras que, assim, poderiam perturbar o tão lucrativo negócio da banana no mercado mundial e garantir uma verdadeira autonomia financeira para a África. Este exemplo da banana é muito sintomático dessa situação que chegou à contradição de países como o Senegal negligenciarem sua própria produção interna de banana para, por decorrência, importarem-na.

C- POR QUE A BANANA?

Vários institutos de pesquisa são unânimes sobre o valor excepcional de nutrientes contidos numa banana madura. Rica em potássio, a banana é medicamento contra hipertensão. É também indicada na medicina moderada, dita natural, contra as úlceras de estômago e contra a diarreia. Rica em ferro, a banana estimula a produção de hemoglobina a qual contribui para diminuir a anemia. A banana contém a vitamina B6 que possui papel regulador da glicose no sangue. Mas, à parte a exportação, a África deveria desenvolver uma larga campanha interna para o consumo da banana, pois o que valoriza essa fruta é o seu grande teor em vitamina C. E somente uma banana por dia bastaria para suprir as necessidades em vitamina C das crianças africanas. E existe um vasto marcado na própria África visto o alto percentual de populações infantis e as necessidades de acréscimos em vitaminas.

D- O CÉREBRO DOS AFRICANOS ESTÁ SONOLENTO?

Dentre os 55 000 de toneladas vendidas no mundo em 2010, 40% foram produzidas na Ásia, 27% na América do Sul e somente 13% na África. Trata-se da banana destinada à sobremesa, ou seja, a banana comida como fruta, a banana madura. Porém, segundo cifras fornecidas pela FAO, em 1995 foram produzidas no mundo 24.000 toneladas de banana verdes, para o cozimento. 17.000 toneladas foram produzidas na África, ou seja, 71%, e 4.000 toneladas na América do Sul, perfazendo 17%. Pode-se portanto deduzir que se os africanos não produzem mais do que 13% da banana mundial; isso não se deve à sua incapacidade e sim a seu estado de passividade mental condicionado a favorecer os interesses econômicos do Ocidente desde que se trate de fazer negócios no mercado; mas não os seus negócios. Vale observar que quando se trata produzir para se (auto)alimentar, quando se trata de satisfazer a um instinto de sobrevivência, eles batem todos os records mundiais. Pode-se então dizer que o cérebro dos africanos parece sonolento quando se trata de produzir para vender, para vender fora da União Europeia. E eles se acham então à mercê dos conselhos sabidamente errôneos dados pela União Europeia, isto é, o de desencorajar a produção de banana para a comercialização, a menos que esta não se encontre inteiramente sob o controle de empresas ocidentais instaladas na África.

Em 2007 65% da banana vendida no mercado mundial provinha de dois países antes campeões do café e que, todos os dois, destruíram as plantações desse maldito café, para cultivar esses espaços com a banana. Essas nações são a Colômbia e a Costa Rica. Isso foi o que fez com que no mesmo ano, dentre os dez maiores exportadores de banana, sete estivessem na América do Sul, permitindo a esse continente controlar 95% da banana exportada no mundo. Durante esse tempo os africanos se preparavam para celebrar os 50 anos de independência, porém sempre com dificuldades em se desvencilhar do jugo colonialista que impõe dedicação exclusiva ao café, ao cacau e ao algodão, este último um produto tristemente lembrado pela ligação com o tráfico negreiro para a América durante quatro longos séculos.

Em 1978 Marrocos decidiu proibir a atividade de importação da banana. O rei simplesmente compreendera que a banana podia ser instrumento geoestratégico nas mãos da monarquia. E apesar das condições climáticas desfavoráveis (ao contrário do Congo e de Camarões) o monarca decide criar estufas bem equipadas e prontas a produzir em subdivisões de 1,53 hectares dadas em locação de preço irrisório a seus cidadãos. Em 1978 Marrocos importava anualmente 24.000 toneladas de banana; a partir de 1992 tornou-se capaz de suprir sua demanda interna no mesmo nível de antes da proibição. Segundo reportagem publicada por três professores: Skiredj, Walali e Attir do Instituto Agronômico e Veterinário Hassan II de Rabat, dos dois hectares iniciais da campanha em 1980/81 se atingiu 2.700 hectares em 1996 e 3.500 hectares em 2011, com uma produção anual de mais de 100.000 toneladas de banana.

E- O QUE SE DEVE FAZER?

A política de apoio deve ser radical e em três direções:

1- 40% da banana produzida na África apodrece por falta de mercado internacional. Para remediar isto deve-se proceder como em Marrocos: estimular e organizar o mercado interno pela coleta sistemática de toda a banana-fruta disponível entre os pequenos produtores para conservá-la em instalações para amadurecimento das quais as bananas sairão uniformemente maduras, na mesma quantidade antes apodrecida pela falta de mercado correspondente à demanda interna.

2- Democratizar a produção de banana pela criação de pequenas glebas. Esta é a única possibilidade de romper com as práticas colonialistas de escravidão nas plantações de banana ainda vista nos nossos dias, não apenas na África, mas também na Martinica e em Guadalupe onde a cultura da banana
3- Para produzir, é preciso saber vender. O mercado internacional, do da aviação ao de brinquedos, responde a lógicas específicas a cada país, a cada produto e a cada cultura. É necessária flexibilidade de espírito para se compreender que o mundo não se limita aos países europeus, ainda que fossem estes os mais ricos. Existe imensa margem para o desenvolvimento do consumo da banana em vários países como a Rússia, o Iran, a Turquia e outros. (...)

(Arigo parcial retirado da revista "Pambazuka News  Pan-Africain Voices of Freedom and Justice)



sábado, 13 de outubro de 2012

Então, quem nos tramou?

Na sua página do New York Times “The Conscience of a Liberal” , “o vidente” Krugman escrevia então:  


Portugal? O Nao!
It’s looking as if Portugal is the next eurodomino. I was hoping not — mainly, of course, for the sake of the Portuguese (I did my first ever policy work there back in 1976, and have always had fond memories), but also selfishly, because it’s by far the blurriest of the troubled peripheral countries.
What I mean by that is that the Portuguese macro story is harder to tell than those of Greece, Spain, and Ireland. Greece was excessive government borrowing; Ireland and Spain, housing bubbles. Portugal, by contrast, wasn’t all that bad fiscally — debt/GDP on the eve of the crisis roughly comparable to Germany. But it also didn’t have surging house prices. There was a lot of private-sector borrowing, but it’s not that easy to explain exactly why.
What’s clear, however, is that at this point Portugal faces adjustment problems similar to those of Spain, and possibly worse. Prices and labor costs are out of line with the rest of the eurozone; getting them back in line will require painful internal devaluation, aka deflation; and given the high levels of private debt, deflation will have nasty side effects. Tolstoy was wrong: many unhappy countries, at least in Europe right now, are pretty much alike.
January 10, 2011, 12:52 pm42 Comments

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Poemas no Ghetto de Varsóvia (Arquivo Ringelblum)

Warsaw Ghetto Poems from the Ringelblum Archives
Yitzkhok Katzenelson: Job-Page 67, Third Act


Job p67 Act 3, 1941
by Yitzkhok Katzenelson
My life has become ugly,
I want to pour out my suffering in words,
come what may-
I will speak my bitterness!
I want to speak to Him like this:
God do not blame me without cause,
make me know
why it is that you indict me?
Are you so great
that you have joy
when you destroy,
when you scorn the work of your own hands
Do you shine in this decision of the wicked!
Or are your eyes too, so meaty thick?
that you don’t see your work as others do?
Or are your days also numbered ?
And your years counted like the years of every one?
That you search so
for my evil sins,
that you thirst so
for my crimes?
Yet all depends on you, on you alone
that I should do no harm!
but there’s no way to save myself from you, no
in my being right!
It is your hands that formed,
developed me,
embraced and shielded me-
and you who have corrupted me…
Recall how you kneaded me like clay,
and covered me with earth again…
You pour me like milk
and like cheese you harden and cool me…
You renewed me with skin and flesh
as with clothes,
sewed me and seamed me
and framed me with bones and veins
granted me life and favor-
I faithfully obeyed your commandment.
You hid that all in your heart–
I knew you oversaw this…
and if I sinned you would remember for me,
and not forgive my sins…
And if I’m evil-
then woe unto me!
And even if I’m righteous-
I will not raise my head!
Shame will not let me
see…see my desolation!
And should my head raise itself up-
you capture me like a lion…
and as you wish-
you play with me, you play…
You turn more of your witnesses
against me,
And your rage that grows
ever heavier…
let them
attack me
again and again–
without count!
So why did you release me
from my mother’s womb?
I would have died there
unseen, as unconceived…
I’d be as if I never was,
from out of viscera, straight into the grave.
My days are scarce,
not enough,
Let me be-
and I will gain a little strength.
before I leave not to return
into land of darkness, silent shadows…
in the land of darkness utter black,
murky shadows,
in great confusion-
and a darkness is her sparkle

domingo, 7 de outubro de 2012

La liberté, René Char


Na linha de continuidade do post anterior, apõe-se outro poema de René Char sobre o tema da liberdade, tão presente nos tempos sombrios que tombaram sobre a Europa no período da II Guerra Mundial.


"Elle est venue par cette ligne blanche pouvant tout aussi bien signifier l’issue de l’aube que le bougeoir du crépuscule.
Elle passa les grèves machinales;
Elle passa les cimes éventrées.
Prenaient fin la renonciation à visage de lâche , la sainteté du mensonge , l’alcool du bourreau.
Son verbe ne fut pas un aveugle bélier mais la toile où s’inscrivit mon souffle.
D’un pas à ne se mal guider que derrière l’absence, elle est venue , cygne sur la blessure par cette ligne blanche."

(« La liberté » in « Seuls demeurent » (1945), recueilli en Fureur Et Mystère, 1948)

La quête de liberté - René Char (1907-1988)

Para estes dias de cólera, é oportuno recordar o poeta da liberdade e do amor ao tempo da Resistência ao nazismo.


 
Aguarela de Françoise Hennebert
 "La liberté n’est pas ce qu’on nous montre sous ce nom. 

Quand l’imagination, ni sotte ni vile n’a, la nuit tombée,
qu’une parodie de fête devant elle,
la liberté n’est pas de lui jeter n’importe quoi pour tout infecter. 

La liberté protège le silence, la parole et l’amour. 

Assombris, elle les ravive ; elle ne les macule pas. 

Et la révolte la ressuscite à l’aurore, si longue soit celle-ci à s’accuser. 

La liberté, c’est de dire la vérité, avec des précautions terribles,
sur la route où TOUT se trouve."

René Char, Après, 1958, Recherche de la base et du sommet





sábado, 8 de setembro de 2012

Uma Igreja outra é possível

No dia 8 de Agosto, em jeito de testamento espiritual, deu a sua última entrevista, no Il Corriere della Sera, afirmando que a Igreja precisa de "uma mudança radical. A começar pelo Papa e pelos bispos". Preocupava-o uma Igreja 200 anos atrasada, sem vocações, agarrada ao bem-estar: "os nossos rituais e vestimentas são pomposos." "Na Europa do bem-estar e na América, a Igreja está cansada." Três instrumentos para sair deste esgotamento: "O primeiro é a conversão. Deve reconhecer os próprios erros. Os escândalos de pedofilia obrigam-nos a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e sobre todos os assuntos que dizem respeito ao corpo são um exemplo. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos media?" O segundo conselho e o terceiro têm a ver com a recuperação da palavra de Deus e dos sacramentos como ajuda e não como castigo.
O cardeal Carlo M. Martini morreu na semana passada. Lúcido, e depois de ter recusado a obstinação terapêutica. Perito em crítica textual do Novo Testamento, foi arcebispo de Milão durante 22 anos e um intelectual eminente. Homem de diálogo - é um best-seller a obra Em Que Crê quem não Crê, debate com o agnóstico Umberto Eco -, era a figura mais brilhante do Colégio dos Cardeais.
Em 2008, exprimiu, com coragem, o seu pensamento sobre questões fundamentais para a Igreja e para o mundo actual, num livro de conversas com outro jesuíta, G. Sporschill: Colóquios Nocturnos em Jerusalém. Aí, interrogava-se: "Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"
Causava-lhe preocupação "a falta de coragem". "A Igreja deve ter coragem para reformar-se", pois ela "precisa constantemente de reformas". "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!" Atreveu-se a pôr Lutero, "o grande reformador", como exemplo, recordando que "a Igreja católica se deixou inspirar pelas reformas de Lutero no Concílio Vaticano II". A Igreja actual tem "medo", mas, se Jesus voltasse, "lutaria com os actuais responsáveis da Igreja", recordando-lhes que "não devem estar fechados em si mesmos, mas olhar para lá da própria instituição".
Foi sempre fiel à "sua" Igreja, que devia ser "uma Igreja simples, com menos burocracia", pobre, humilde, que não depende dos poderes deste mundo, uma "Igreja inventiva", "jovem", que dá ânimo sobretudo aos mais pequenos e pecadores, que luta pela justiça, mais colegial, e que volte ao Concílio, pois "há a tendência de afastar-se dele".
Sobre a juventude e a sexualidade, incluindo as relações pré-matrimoniais: "nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A Igreja deve ir ao encontro de uma sexualidade que não está "reservada ao confessionário e ao âmbito da culpa", uma sexualidade "sã e humana", com "uma nova cultura que promova a ternura e a fidelidade".
Foi sensível no trato com os homossexuais e compreendia o uso do preservativo. Confessou que a encíclica Humanae Vitae, em 1968, com a proibição da "pílula contraceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra". Mas estava convicto de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica". Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida. Contra o celibato obrigatório, disse que era preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados e de abrir a ordenação às mulheres.
Reconheceu as suas "dúvidas de fé". "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe". Mas acreditava que "o amor de Deus é mais forte", e o inferno está vazio.
Alguma imprensa inglesa definiu-o como o "Papa perfeito para o século XXI". Como seria a Igreja, se Martini tivesse sido Papa? De qualquer modo, ele foi um exemplo de que uma Igreja outra é possível.
Artigo de Anselmo Borges, Diário de Notícias, 08/08/2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Tourada: clarificação para um debate

Embora não disponha de dados estatísticos sobre as representações e as atitudes por camadas sociais e por regiões geográficas, ao longo dos últimos anos, em relação à tourada, verifico que hoje, excetuando o Ribatejo e o Alentejo, ela é um tema fraturante: de um lado, os aficionados, seus adeptos fervorosos; do outro lado, os seus opositores exaltados; ao centro, a nebulosa dos restantes, cuja aparente indiferença pode ser talvez uma enorme dúvida afivelada.   
O dilema que na oposição das posições se apresenta ao pensamento e à ação parece não ter saída, exceto optando por um dos lados da barricada, com exclusão do outro.
É preciso elevar a questão ao plano do pensamento, distinguindo os seus vários planos (o estético e o ético), valorando o que é justo em cada qual, hierarquizando as razões, enfim preparando uma decisão consciente e responsável sobre o objeto em análise.
Para tal, interessa percorrer o conjunto das razões de uns e de outros, em ordem a avaliar a sua substância e os seus limites.
O argumentário dos aficionados da tourada é pertinente nas suas razões.
A ancestralidade da tourada, que se manifestou nas culturas mediterrânicas desde um período pré-cristão e que se foi mantendo com altos e baixos ao longo da história, sobretudo nos países ibéricos até aos nossos dias, é a mostra de que o seu valor intrínseco desafia a voragem do tempo.
Nos últimos dois séculos, a decantação estética da tourada foi-se operando, formalizando-se o vestuário do cavaleiro (ao jeito da indumentária da corte francesa de Luís XV) e dos forcados (como o que vestiam os rapazes no séc. XIX), ajaezando-se os cavalos, ritualizando-se todo o teatro da ação do espetáculo.
Neste quadro, decorre a práxis artística do cavaleiro e forcados, fruto de uma longa aprendizagem e com exigências próprias (destreza, domínio, sagacidade, coragem) e cuja finalidade visa alcançar na brega a vitória sobre o touro, o qual simboliza a energia e a força telúricas.
Há neste confronto do cavaleiro com o animal uma significação antropológica funda: se o homem não vence a natureza não se afirma na sua humanidade e acaba por ficar prisioneiro da sua própria animalidade.
É preciso assim que o cavaleiro corra o perigo, mesmo mortal, expondo-se ao insucesso da sua empresa, sendo necessário o aprimoramento da sua arte para que por toda a praça soe o clamor dos olés ululantes, ritmados pelas palmas e pela emoção arrebatada da multidão.

Esta matriz cultural da tourada ficou incólume com os tempos modernos, pois também estes assentaram numa conceção antropocêntrica em que o homem, vértice da pirâmide cósmica, deve tornar-se dono e senhor da natureza. 
Contudo, assistimos hoje à falência desta grande metanarrativa da soberania do homem sobre a natureza no seu conjunto, com a descoberta dos efeitos perversos ( o desastre ambiental e o esgotamento dos recursos naturais) em larga escala da nossa intervenção, mediatizada pelas tecnociências, invertendo o projeto de emancipação que por esta se prosseguia.
A crise ecológica dos séculos XX e XXI foi a consequência direta da desproporção enorme entre a vastidão do conhecimento existente e a estreiteza do juízo moral, tendo sido a distinção facto-valor, além da herança filosófica do cartesianismo, as principais raízes teóricas daquela crise.
A associação destas duas razões conduziu a uma interpretação errónea do sistema de sustentação da vida, mas é hoje possível estabelecer epistemologicamente, partindo da física contemporânea, das ciências da vida e sobretudo da ecologia, uma interpretação adequada da natureza, em virtude de nenhuma ciência de per si estar preparada para lidar com a questão.
As ciências biológicas (bioquímica evolucionista e ecologia), debruçando-se sobre níveis de organização mais avançados do que os estudados pela física, acabam por revelar a existência de funções inerentes a toda a forma de vida. Tratando-se de funções da vida, o juízo que as expressa é necessariamente de valor, uma vez que a descrição do facto se acompanha de procedimentos de interpretação e de decisão.
Quer as formas de vida na sua riqueza múltipla, quer as funções vitais manifestam assim, pela sua simples presença, independente da subjetividade humana, determinados valores naturais, que são da espécie do senso comum e aproximadamente universais às culturas, ou que se tornam acessíveis a nós pela cultura científica, através de lentes e experiências.
Mas estando o valor antes de nós, isso não significa que não se tenha feito uma evolução programática até chegar a ele, sendo assim um acontecimento que a história natural produziu. Deste modo, nem tudo na natureza (cujas leis últimas desconhecemos) é valor, pois os valores imediatamente experienciados podiam regressar a alguma base não valorável a partir da qual emergiram.
Em que consiste então a natureza do valor natural?
Consiste num duplo movimento em que o sujeito que contempla uma cena envolvente nela se internaliza e em que esta cena se insinua dentro daquele. Mas, tal avaliação é uma associação e o sócio-objectivo em posição livre não pode ordenar o valor sobre o sócio-subjectivo se não tiver nada para oferecer.
Trata-se agora de um modelo ecocêntrico, que reconhece a consciência humana como valor (relativamente às formas precedentes), mas fá-la entrar para dentro da realeza do valor natural objetivo.
Deste modo, a natureza, nos seus múltiplos níveis de organização, manifesta-nos muitas possibilidades de avaliação e desafia-nos a responder como artistas, poetas e filósofos, como avaliadores, embora a nossa resposta seja insuficiente, mas pode ser melhorada pelo recurso à educação.
O modo como o valor se manifesta é sempre sob a forma de uma imposição que constrange e enobrece o papel que nós humanos somos chamados a desempenhar ao ficarmos obrigados categoricamente ao respeito dos direitos intrínsecos da Terra e do mundo animal no seu conjunto.
Neste novo modo de pensar, emerge uma ética objetivamente fundada na natureza, no horizonte definido pela ecologia, que abrange todo o mundo animal e dando lugar ao surgimento de uma ética animal, que comporta implicações nas nossas práticas costumeiras e que exige novos posicionamentos jurídicos e teológicos.
E voltamos ao dilema referido: manter a estética da tourada à custa da ética animal ou optar por esta em detrimento daquela? Não vejo que seja possível o consenso.
Que fazer neste quadro conflitual?
Pensar que para além das razões que apresentei, outras já foram avançadas por grandes pensadores do passado, que relacionaram a ação que temos com os animais com o nosso caráter. Dois exemplos: 
“As nossas obrigações com os animais são apenas obrigações indiretas com a humanidade. A natureza animal possui analogias com a natureza humana, e ao cumprir com as nossas obrigações para com os animais em relação às manifestações da natureza humana, nós indiretamente estamos cumprindo as nossas obrigações com a humanidade. Podemos julgar o coração de um homem pelo modo como trata os animais.” (Immanuel Kant).
"A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter, e pode ser seguramente afirmado que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem." (Arthur Schopenhauer)
E persuadir apresentando as melhores razões; lutar pelo que consideramos mais racional; apresentar alternativas em que a arte encenada na tourada possa ser transmutada sem agravo dos animais; preservar a arte do toureio sob a forma do registo museográfico, enfim.
Nós na Caldas já tivemos um Museu da Equitação e Toureio, obra de Paulino Montez, que a incúria deixou estragar em grande parte. Não será altura, conservando a memória das duas últimas touradas (15 e 25 de Agosto último), de alguém (a Câmara?...) começar a pensar nisso a sério?