quarta-feira, 13 de março de 2013

“Acordo de Londres: uma verdade inconveniente”: posição sobre dívidas soberanas na UE

  (…) A bancarrota dos Estados é vista, há muito tempo, como um problema longínquo, próprio do chamado Terceiro Mundo (o Sul Global). Hoje não está de modo algum distante, mas precisamente à nossa porta. Uma emergência económica, decorrente do excesso de endividamento, ameaça a própria existência da união monetária europeia. A devastação social e política dos países atingidos pela crise ameaça o tecido social desses países. No entanto, a Alemanha parece manter-se à parte, com uma economia relativamente bem sucedida e florescente. Mas não foi sempre assim.
Poucas pessoas sabem que a Alemanha beneficiou de um generoso perdão parcial de dívida no início do seu "milagre económico". De entre as reestruturações de dívida soberana modernas, o Acordo de Dívida de Londres para a Alemanha, cujo 60.º aniversário assinalamos a 27 de Fevereiro, é um exemplo precoce e pouco conhecido. Isto é tanto mais surpreendente quanto se trata de um caso de sucesso na restauração da sustentabilidade da dívida da Alemanha Ocidental. No fim das negociações, metade de todas as dívidas (no valor de 30 milhões de marcos alemães) tinha sido cancelada e o restante fora reescalonado de forma tão inteligente, que a Alemanha nunca mais enfrentou um problema de dívida.
Às crianças alemãs não é habitualmente ensinado nada acerca deste acordo nas aulas de História, e nos media pouca atenção lhe é dedicada. No entanto, seria hoje prudente lembrarmo-nos de como a bancarrota iminente de um Estado foi evitada através de negociações atempadas, rápidas, exaustivas e justas.
O contraste entre o tratamento histórico da Alemanha e o atualmente imposto à Grécia e a Portugal não podia ser mais óbvio. A Alemanha beneficiou de um perdão alargado e, como consequência, a sua economia cresceu rapidamente e de forma sustentável. Pelo contrário, a Grécia e Portugal estão a ser forçados a "consolidar-se" a si mesmos em direção a uma recessão dolorosa e destrutiva, que abala as fundações da sociedade. Um dos países mais generosos com a Alemanha em 1953 foi, já agora, a Grécia, apesar dos crimes de guerra cometidos durante a ocupação alemã poucos anos antes.
Poucas reestruturações de dívidas soberanas marcaram tão claramente a transição de uma condição de endividamento crítico para uma situação em que a dívida deixa de constituir um obstáculo ao desenvolvimento económico e social como a de 1953. O acordo encontrado é ainda hoje um dos melhores exemplos históricos de quão razoável e sustentável uma renegociação de dívida pode ser, se houver vontade política.
Vale a pena reexaminar hoje "Londres 53" como exemplo e fonte de inspiração para as atuais discussões sobre renegociação de dívida, tanto para os países do Sul Global como no contexto das crises de insolvência na zona euro. Lembremo-nos deste pedaço vital de história esquecida!”
Sbscritores desta posição: Bodo Ellmers (European Network on Debt and Development, Bélgica), Eric LeCompte (Jubilee USA Network, EUA), Isabel Castro (Iniciativa para uma Auditoria Cidadã à Divida Pública - IAC, Portugal), Iolanda Fresnillo (Plataforma Auditoria Ciudadana de la Deuda - PACD, Espanha), Kristina Rehbein e Jürgen Kaiser (erlassjahr.de - Entwicklung braucht Entschuldung e.V., Alemanha), Nessa Ní Chasaide (Debt and Development Coalition, Irlanda), Andy Storey (Debt Justice Action"s Anglo: Not Our Debt, Irlanda), Nick Dearden (Jubilee Debt Campaign, Reino Unido)

Cf. Público, 12 Março de 2013

terça-feira, 12 de março de 2013

“Uma ordenança demasiado escrupulosa”, o soldado Chveik no meio de nós

O excerto do romance O valente Soldado Chveik do escritor checo Jaroslav Hasek (1883-1923), publicado em 1923, descreve as peripécias da vida de um soldado durante a 1ª Guerra Mundial.
A sua construção é comandada por uma estratégia retórica que permite apreender o sentido como o inverso do que se diz: a ironia. Esta põe assim em causa a atitude essencial do soldado Chveik: a submissão voluntária à autoridade instituída.
Convoca-nos assim a uma atitude de distanciação crítica a toda a forma de obediência cega ao patrão, político, religioso ou outro. A única forma que nos permite vencer as aporias que nos cercam, derrogando o que dizem os “tenentes”, que, por vergarem a espinha aos “generais”, julgam estar legitimados para exigir obediência aos “soldados”.
Eis o excerto:
“Chveik aprontava-se para ir desencantar um cão de guarda de estrebaria, quando a campainha tiniu com frenesim no apartamento silencioso; abriu a porta e encontrou-se face a face com uma senhora que desejava falar urgentemente ao tenente Lucas. Aos seus pés achavam-se duas malas enormes deixadas ali por um moço de fretes. Chveik enxergou ainda o barrete vermelho a desaparecer pela escada abaixo.
- Não está em casa - falou secamente Chveik.
Mas a jovem, sem se deixar desencorajar por este acolhimento pouco amável, introduziu-se na saleta e ordenou categoricamente a Chveik.
- Leve as malas para o quarto de dormir!
- É impossível, sem ordem formal do meu tenente; disse-me de uma vez para sempre que nunca devia proceder de outra maneira.
- O  senhor  está  doido! - bradou  a jovem.--Eu  venho de visita.
- Mas eu ignoro-o completamente - replicou Chveik. O meu tenente está hoje de serviço e só regressa de madrugada. A única ordem que me deu foi de procurar um cão de guarda de estrebaria. Mais nada. Não me falou nem de malas nem de senhoras. Vou agora fechar o nosso apartamento à chave e a senhora será bastante gentil em ir-se embora. O tenente não me participou a sua visita e não posso confiar a casa a pessoas desconhecidas que eu nunca vi. Uma vez, o confeiteiro Belcicky, da nossa rua, deixou um homem sozinho numa arrecadação; o sujeito arrombou um armário e raspou-se pela janela.
Como a visitante se pusesse a chorar, Chveik mudou de tom.
- Eu não penso mal de si, minha rica senhora, mas não pode ficar aqui. Acabará por me dar razão quando souber que o tenente me confiou o apartamento a mim, que sou o responsável de tudo. Peço-lhe, portanto, mais uma vez, e muito delicadamente, de fazer o favor de se retirar. Enquanto não receber ordem formal do tenente eu não a conheço. Causa-me pena ter de lhe falar assim, mas com os militares, antes de mais nada, é preciso disciplina.
Um pouco mais serena, a jovem sacou de um cartão de visita, escreveu nele algumas linhas e, metendo-o num galante envelope, disse com embaraço:
- Leve isto ao tenente, esperarei aqui pela resposta. Tome cinco coroas como gratificação.
- Não há nada a fazer - respondeu Chveik, magoado pela obstinação  da  inesperada visitante. - Guarde  as  suas cinco coroas, aqui as tem, deixo-lhas em cima da cadeira. Se quiser, venha  comigo  ao quartel  e  espere-me  lá,  enquanto  eu entrego a  carta ao  tenente.  Nessa  altura,  terá a resposta, mas não teime em querer ficar aqui; teria de esperar quinze anos. Não vale a pena.
Dito isto, empurrou as duas mala do corredor para a saleta e, fazendo ranger a fechadura, gritou, imitando o guarda de um velho castelo ou de um museu:
- Vai fechar!
Desesperada, a jovem saiu do apartamento; Chveik fechou a porta com duas voltas de chave e desceu a escada. A desconhecida seguia-o como um cachorrinho e só o conseguiu alcançar na altura em que Chveik saía do estanco.
Ela caminhava agora ao lado dele e esforçava-se por encetar conversa.
- Não se esquece de entregar o meu cartão, sem falta ?
- Pois se já lhe disse que sim.
- E está certo de encontrar o tenente ?
- Isso não sei.
A estas palavras seguiu-se um longo silêncio. Foi ainda a infortunada visitante que experimentou fazer falar a ordenança demasiado escrupulosa:
- Quer  dizer,  então,  que  o  senhor julga  não  encontrar o tenente.
- Não disse isso.
- E onde pensa encontrá-lo?
- A esse respeito, nada lhe posso dizer.
De novo reinou o silêncio. Enfim, a jovem arriscou ainda uma pergunta:
- O senhor não perdeu a minha carta ?
- Ainda não.
- Vai entregá-la ao tenente?
- Sim.
- E está convencido de o encontrar?
- Que diabo! Já lhe disse que não sei. É espantoso como existem pessoas curiosas que perguntam a mesma coisa cinquenta vezes. É como se eu me divertisse a fazer parar na rua os transeuntes, um após outro, para lhes perguntar que dia do mês é hoje.
 Esgotados desta maneira todos os expedientes de conversação, caminharam até ao quartel sem se importarem mais um com o outro. Em frente da porta, Chveik convidou a jovem a esperá-lo e entabulou uma discussão sobre a guerra com uma das sentinelas.”
Jaroslav Hasek, O valente Soldado Chveik, Ed. Público e Levoir, trad. de Alexandre Cabral, 2011, pp. 194-6


segunda-feira, 11 de março de 2013

A arte como caminho para a verdade em Nietzsche

A arte, sobretudo a música, acede à visão da unidade do ser, na qual todas as fronteiras do conceito de uma racionalidade calculante são estilhaçadas. Ora, não é isto um modo de aceder a um outro tipo de verdade ontológica, desta vez pela mediação da arte? Com efeito, o que Nietzsche aqui critica é uma determinada configuração da verdade, como bom discípulo críptico e crítico do mestre Hegel, embora talvez sem disso ter consciência. Como pensa Heidegger, Nietzsche encerra a grande tradição metafísica de obliteração do ser, e cria as condições para o salto para a era ontológica, de recuperação da verdade do ser do ente. Também a sua obra sobre a essência da arte vai neste sentido.
A razão está em Nietzsche intimamente conectada com o corpo, que procura em permanência preservar e intensificar a vida, não sendo assim pensável como instância soberana deste mas sua serva. O princípio em que se funda esta exigência do corpo é a vontade de poder.
Por isso, os conceitos são ficções necessárias à manutenção da vida, como mostra a sua obra Acerca da verdade e da mentira  num sentido extramoral (1873). 
Na sua reflexão sobre o logos ocidental, Nietzsche, a partir de 1886, toma consciência de que este "é habitado por uma força mais heraclitiana do que parmenideana , mais dissolvente do que agregadora, à qual chama "força da veracidade” ("wahrhaftigkeit"), (1), e em relação à qual ainda ninguém foi suficientemente verídico.
Neste âmbito, somos forçados a concluir que há um modelo de verdade (realista, como adequação à coisa e que foi dominante até Leibniz e Kant), que se encontra em processo de dissolução, mas que se afirma com toda a pujança doravante um outro modelo de verdade - a veracidade -, aberto à mudança, à diversidade , à complexidade, ficando a ciência desprovida de qualquer fundamento último.
Trata-se de uma verdade perspectivística, cambiante e plural, "em equilíbrio e em dialéctica entre os impulsos de preservação (a desmascarar pela força da veracidade) e as forças desmistificantes e contramitológicas que estarão ao serviço daquela veracidade"(2).
Notas 1 e 2: cf. António Marques, Perspectivismo e Modernidade, Editorial Vega, pp. 90 e 104.


O brio do amor e o orgulho do cavaleiro, no filme A severa (1931)


CINEMA PORTUGUÊS - «A SEVERA» - VIDEO 7 por pborgesalmeida

O filme a Severa, de 1931, de Leitão de Barros, com música de Frederico de Freitas, devia despertar interesse aos cinéfilos, pelo seu valor enquanto objeto estético, sendo também importante para o estudo do momento específico da cultura em que surgiu.
 Baseia-se narrativa de Júlio Dantas A severa (1901), que conta a história de um triângulo amoroso, ocorrido no século XIX, por um fidalgo (D. João, o conde de Marialva), dividido entre a fidelidade à esposa (a Marquesa de Seide) e a Severa, mítica e insinuante cigana que a lenda consagrou como fadista desditosa, pois morreu aos 26 anos.
Para além da descrição crua da violência inerente à tourada, que se mostra no sangue e quebranto do forcado depois da lide, interessa-me destacar a cena da tourada a cavalo, pois aí surge o confronto entre as duas razões que fazem mover a ação: o desejo do amor (no caso a cigana pelo marido) e o desejo da realização perfeita da obra (cavaleiro). Este confronto aparece quando, após o marido da cigana, ante a falta de coragem do cavaleiro para dominar o touro, decide ir à arena e matá-lo, tendo ficado ferido e sendo retirado em braços. Então, o cavaleiro dirige-se-lhe para lhe bater, obrigando a cigana a, com palavras veementes, defender o marido da ofensa. O andamento final do Fado da Severa (cantado noutra cena por Dina Teresa), sublimando a grandeza do amor, pontua este momento orquestralmente:

Tenho o destino marcado
Desde a hora em que te vi
Ó meu cigano adorado
Viver abraçada ao fado
Morrer abraçada a ti.
 
Soberba esta cena do filme e rica de implicações!

sábado, 9 de março de 2013

O desejo de Elvira, por Apollinaire (1880-1918)

Picasso, Mulher sentada junto a uma Janela
O romance de Apollinaire "a mulher sentada", publicado em 1920, aborda o tema do desejo feminino, sendo Elvira a personagem central, “mulher de espírito livre e memória notável” que vai colecionando amante sobre amante, sempre esforçando-se por se manter estéril em clara dissidência com a moral social dominante, que impunha à mulher como sua função principal a procriação.
O título do livro reenvia para o tópico “eu vi uma mulher sentada sobre uma besta escarlate” do Apocalipse (17, 1-5), tomando aqui o sentido do triunfo da emancipação da mulher relativamente a todas as formas de dominação falocrática da cultura ocidental.
A história é contada por um narrador omnisciente, na terceira pessoa, entrecortada com passagens das personagens em discurso direto. Como pano de fundo, a referência à guerra (a ação do romance decorre nos primeiros anos da 1ª Guerra Mundial), sobre a incerteza dos tempos que correm e a exaltação da beleza da poesia e das artes … pois a ação decorre no espaço onde a modernidade artística está em plena efervescência, Paris.
Num determinado momento da diegese, já terminal, o texto refere que Elvira, estando a viver com Nicolau Varinoff, era cortejada por Pablo Canouris, “o pintor das mãos azul celeste”, que conhecera há algum tempo e que não deixava de lhe propor que fosse viver com ele. E quando, após consultar uma vidente sobre o seu destino, na companhia de uma amiga, esta a informa de que ela iria deixar o atual amante para ir viver com o pintor, fica muito impressionada com o vaticínio.
Vejamos este momento emblemático da manifestação do desejo feminino enquanto afirmação da independência da mulher, no plano social, sexual e laboral:

“Voltou muito impressionada daquela visita. No dia seguinte, ao acordar, ouviu um cão uivar na rua. “Estás a ouvir aquele cão a uivar?” – disse ele para Nicolau Varinoff- - Significa separação.”
Ele não fez caso, mas, de tarde, enquanto Nicolau foi de visita à irmã, Elvira correu a casa de Pablo e disse-lhe que decidira ficar com ele. (…)
Mas logo ao segundo dia se cansou de Pablo. Escreveu a Nicolau, que lhe respondeu que viesse e, ao oitavo dia, valendo-se de uma ausência de Pablo, abandonou o “atelier” do pintor das mãos azul celeste, o qual, ao recebê-la em sua casa, não tivera suficiente presença de espírito para lhe dizer que ela era ela e para lhe confiar as chaves.
Porque as mulheres têm hoje em dia, consciência da sua importância ímpar como guardiãs da vida social e da raça, cujos representantes machos fazem os possíveis por se aniquilarem. Dentro ou fora do casamento, só muito impacientemente suportam o jugo viril, querem ser senhoras do destino do homem e preocupando-se muito pouco com submissões, tomaram, doravante, gosto pela liberdade, pois, para salvar a raça humana, necessário ter as mãos livres.
E foi por isso que, de regresso a casa de Nicolau Varinoff, que não achara conveniente conservar o seu domínio sobre ela e que, partindo para a guerra, lhe proporcionara o ensejo de saborear a sua liberdade, foi por tudo isso que ela se pôs a meditar no exemplo de sua avó Pamela, a Mórmone, e concluiu, consoante essa experiência, que a poliginia não era o que se impunha em tempo de guerra, nem mesmo sequer em tempo de paz.
Decidiu ela que as mulheres, graças ao seu número e também à liberdade que usufruíam em relação ao Estado, detinham doravante um poder que chegava a ultrapassar aquele que, outrora, parecia ser pertença do homem, tornado o escravo da nação.
Pensou que esse poder da mulher passaria a exercer-se como devia se esta se entregasse agora abertamente à poliandra; assim arranjou cinco amantes.
Elegeu um palhaço piemontês cujo fato multicolor e cuja maquilhagem a encantavam; um estudante que se destinava às letras, um mutilado de ambos os braços que se lhe dirigia à bruta e que a adorava, um aviador de reserva chamado Pentelemon (a quem escolhera por esse nome lhe recordar o da Pentelemonskaia onde, em Petrogrado, morara) e, finalmente, um torneiro de obuses, moço do Norte que sabia bonitas cantigas.
Atirou-se ao ardor do trabalho, pois prezava sobremaneira não estar a cargo de nenhum homem, e, como tinha sucesso, ganhava bem a vida.
Valia-se regiamente do poder que a guerra lhe auferira.
Mas nenhum dos seus amantes lhe ocupava o coração, que ela compartilhava com Mavise Bandarelle e Corail, a linda ruiva de olhos cor de avelã, que de aparência tanto lembrava uma gota de sangue sobre uma espada."
Guillaume Apollinaire, A Mulher sentada, trad. de Luiza Neto Jorge (ed. fr.: La femme assise), editorial Estampa, 1974, pp. 103-4.

PS: homenagem a todas as mulheres na celebração do Dia Internacional da Mulher (ontem, dia 8 de Março)


quinta-feira, 7 de março de 2013

S. Tiago: um apóstolo para o nosso tempo

Nem sempre, no âmbito da reflexão teológica ou da formação religiosa, se dá o devido realce à figura de S. Tiago. A razão de tal subvaloração pode estar relacionada com a relativamente escassa produção escritural daquele (apenas uma Carta), bem com das limitadas referências bíblicas a seu respeito pelos outros autores.
Contudo, o que se diz aí é muito relevante. S. Tiago era um dos irmãos de Jesus (Mc. 6,3; Mt. 13,55), um seu apóstolo que assumiu a direção da comunidade primitiva de Jerusalém, com Cefas e João, sendo nessa qualidade que investiu S. Paulo na sua missão evangelizadora (S. Paulo, Gal. 2, 9).
A sua Carta, que permite aquilatar a radicalidade com que viveu o Evangelho, é um convite à conversão à verdadeira fé, que se finaliza na construção de um mundo justo onde a riqueza criminosa é posta em acusação.
Razões suficientes para que a elite sacerdotal (os saduceus),  no ano 62, o tenha condenado à morte por lapidação, vendo nele um perigo religioso e político só comparável ao que Jesus representara 32 anos antes.
Sobre os ricos, veja-se a seguinte passagem:
1 Pois bem, agora vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que estão para vos sobrevir.
2  A vossas riqueza apodreceu e as vossas vestes  estão carcomidas pela traça.
3 O vosso ouro e vossa prata estão enferrujados e a sua ferrugem testemunhará contra vós e devorará as vossas carnes. Entesourastes como que um fogo nos tempos do fim!
4 Lembrai-vos de que o salário, do qual privastes os trabalhadores que ceifaram os vossos campos, clama, e os gritos de ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos.
4 Vivestes faustosamente na terra e vos regalastes; vós vos saciastes para o dia da matança.
5 Condenastes o justo e o pusestes à morte: ele não vos resiste.

Carta de S. Tiago, 5, 1-6, A Bíblia de Jerúsalem

Alain Badiou, um pensador da democracia

Alain Badiou, no capítulo do livro coletivo Democracia, em que estado? “o emblema democrático”, afirma que a democracia figura como o emblema dominante da sociedade política contemporânea.
Nesse sentido, enfatiza a necessidade, ainda que a título de um exercício a priori, de destituir as sociedades desse emblema para melhor se aproximar da sua realidade. Assim, inicia a sua análise ressaltando o caráter circunscrito assumido pela democracia, pois o “mundo” dos “democratas”, na prática, não se estenderia a todos, o que tornaria os seus componentes, na verdade, uma elite conservadora.
Propõe, desse modo, uma releitura daquilo que considera ser, no âmbito da filosofia, a primeira destituição do emblema democrático: o livro VIII da República, no qual Platão denomina “democracia” a um tipo de constituição. A crítica platónica não seria simplesmente reativa e aristocrática. Assim, recuperando o essencial do argumento de Platão, ao qual adere expressamente, Badiou ressalta que o mesmo se prestaria à compreensão e à crítica da democracia nas sociedades atuais.
Assim, esta democracia, propondo um ideal simbólico aos seus cidadãos – a eterna juventude como sociedade do puro prazer dos indivíduos – é cúmplice da limitação assinalada em virtude do princípio que está na base da sua organização – a propriedade privada. A solução consiste em tornar efetiva a ideia comunista autêntica, programando o desaparecimento deste Estado e das suas leis.  
Fiquemos com um excerto deste capítulo:

“... Trata-se para nós do mundo ("monde") e não de todos ("tout le monde"). O mundo, justamente, tal como em aparência existe, não é o de todas as pessoas. Porque os democratas, pessoas do emblema, pessoas do Ocidente, têm aí a situação favorável, e os outros são de um outro mundo que, enquanto outro, não é um mundo propriamente falando. Exatamente uma sobrevivência, uma zona para as guerras, as misérias, os muros e as quimeras. Neste género de mundo, de zona, passa-se o tempo a fazer as suas bagagens, para fugir do horror ou para partir, para onde? Para o local dos democratas, evidentemente, que pretendem governar o mundo e têm necessidade que se trabalhe para eles. Faz-se então a experiência que, bem a quente, sob o seu emblema, os democratas não querem nade de vocês, eles não vos amam. No fundo, há uma endogamia política: um democrata só ama um democrata. Para os outros, vindos de zonas com fome ou com guerra, fala-se primeiramente de papéis, fronteiras, campos de retenção, vigilância policial, recusa da reunião familiar … É necessário estar integrado em quê? Na democracia sem dúvida. Para ser admitido e talvez um dia saudado, é necessário ser treinado em casa a tornar-se democrata, durante longas horas, trabalhando duramente, antes de se imaginar poder vir ao mundo verdadeiro. (…) É um exame tremendo que vos espera! Do falso mundo ao verdadeiro mundo, a licença está no impasse.
Democracia, sim, mas reservada aos democratas, não é verdade?
Mundialização do mundo, certamente, mas sob a condição que o seu exterior mereça enfim de estar no seu interior…
De que república se alimenta a invocação “dos nossos valores republicanos”? A que se criou no massacre dos “communards”? A que se musculou nas conquistas coloniais? A de Clemenceau, o destruidor de greves? A que também organizou a matança 14-18?  A que deu plenos poderes a Pétain? Esta “República de todas as virtudes” foi inventada pelas necessidades da causa: defender o emblema democrático, que sabemos que enfraquece perigosamente, tal como Platão, com os seus guardas filósofos, acreditava segurar elevada ao alto uma bandeira aristocrática já comida pelas traças… “

Jacques Rancière, “L’ emblème démoctratique”, in AAVV. Démocratie, dans quel état ?, éditions La Fabrique, 2009.

quarta-feira, 6 de março de 2013

“11 teses sobre a política”, por Jacques Rancière

1
A Política não é o exercício do poder; ela deve ser definida por si mesma como uma modalidade própria da ação levada à prática por um tipo singular de sujeito e derivando de uma classe de racionalidade específica; é a relação política o que torna possível conceber o Sujeito-Político (não o contrário).
2
O peculiar da Política é a existência de um sujeito definido pela sua participação em oposições; a Política é um tipo de ação paradoxal.
                                                               3
A Política é uma rutura própria da lógica da Arché, posto que não pressupõe simplesmente a rutura da distribuição “normal” das posições entre quem “exerce” o poder e quem o “sofre”, senão também uma rutura na ideia das “distribuições” que tornam as pessoas “adequadas” a estas posições.
4
A Democracia não é um regime político; ela é uma rutura da lógica da Arché; noutros termos, ela é a antecipação da regra na distribuição pela Arché; a Democracia é o regime da Política enquanto forma de relação que define o Sujeito-Singular.
5
O Povo – o qual é o Sujeito-da-Democracia e portanto o Sujeito-Matricial da Política – não é o “conjunto dos membros da comunidade”, ou a “classe-operária”, ou a “população”; ele é a parte suplementar em relação a qualquer das partes contáveis: assim é possível articular os “incontáveis” com a “totalidade” dos associados.
6
A essência da Política é a ação de Sujeitos-Suplementares inscritos a título de “mais-valor” em relação a qualquer totalização das partes de uma sociedade.
7
Se a Política é o traçado de uma diferença precária na distribuição das partes sociais, então a sua existência não é de modo algum necessária; pelo contrário, a Política ocorre como um acidente recorrente na história das formas-de-dominação; assim, o objeto fundamental do confronto político é a existência mesma da Política.
8
A Política é especificamente antagónica ao policiamento, o qual é uma distribuição do visível cuja Arché é a ausência de vazio e de suplemento.
9
A tarefa essencial da Política é a configuração de seu próprio espaço, de modo a que o mundo dos seus sujeitos e as suas operações resultem visíveis; a essência da Política é a manifestação do Dissenso enquanto presença de “dois mundos em um”.
10
A característica fundamental da Filosofia política consiste tanto em colocar a ação política numa modalidade específica do Ser como em ocultar o litígio que é constitutivo da Política; é na descrição mesma do mundo da Política que a Filosofia produz este ocultamento; por outra parte, a efetividade desta operação é perpetuada nas descrições não-filosóficas ou antifilosóficas deste mundo.
11
O “fim da Política” e o “retorno da Política” são duas maneiras complementares de cancelar a Política através de um relacionamento simples entre o social e os aparelhos-estatais; “consenso” é o nome vulgar deste cancelamento. (Esta tese foi um acrescento à edição que refiro)
Jacques Rancière, ‘Dix Thèses sur la politique’, Aux Bords du politique, Gallimard, 2004.


segunda-feira, 4 de março de 2013

A RENÚNCIA DE RATZINGER

“Com a renúncia do Papa Ratzinger espera-se que o Espírito Santo volte a soprar sobre a nossa Igreja. De fato, depois de séculos de autoritarismo e opressão o povo de Deus deseja que o bom senso volte a imperar na Igreja de Cristo, substituindo a pompa pela simplicidade, o diálogo pela arrogância e a vaidade pelo verdadeiro espírito do Ressuscitado.

Em uma profecia exarada em 1993, o célebre teólogo-moralista Bernhard Häring preconizou as seis  necessidades que deveriam ser implantadas na Igreja:

1. abolir os títulos eclesiásticos;
2. cancelar as púrpuras cardinalícias;
3. eliminar o corpo diplomático da Santa Sé;
4. proibir chamar o papa de “Santidade”, os cardeais de “Eminência”, os bispos de “Excelência” e os padres de "Reverendo";
5. dar às mulheres os mesmos direitos que os homens, inclusive o acesso ao sacerdócio;
6. e fazer com que o Papa seja também discípulo do único mestre, Cristo.

Que os novos ares de atualização e renovação, sonhados por João XXIII se tornem agora verdade e realidade."
Cf. Recanto da Letras, Antônio Mesquita Galvão, edição online

domingo, 3 de março de 2013

A fotografia de Sebastião Salgado: um olhar de apelo à minha responsabilidade


" Nos retratos de Salgado, podemos contemplar as fotos das crianças refugiadas de várias nacionalidades diferentes que, vistas em conjunto, reforçam essa ideia de que os males se espalham pelo planeta afetando as pobres criancinhas, condenando-as ao mesmo tipo de exílio na pobreza. Talvez, por sua extrema qualidade estética, possam até ser incluídos no que Ivana Bentes classifica, quanto a um certo cinema dos anos 1990, como "cosmética da fome": "filmes em que a linguagem e a fotografia clássicas transformam o sertão num jardim ou museu exótico, a ser resgatado pelo grande espetáculo".
Karl Erik Schollhammer, "Imagens na margem do mundo globalizado" in: Além do visível: o olhar da literatura, 7 Letras, Rio de Janeiro, 2007, p. 189.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

"À Música": um elogio por Schubert


Franz Schubert: An Die Musik, D 547 - Felicity Lott

An die musik / À música

Du holde Kunst, in wieviel grauen Stunden,
Wo mich des Lebens wilder Kreis umstrickt,
Hast du mein Herz zu warmer Lieb entzunden,
Hast mich in eine bessre Welt entrückt!

Oft hat ein Seufzer, deiner Harf entflossen
Ein süsser, heiliger Akkord von dir
Den Himmel bessrer Zeiten mir erschlossen,
Du holde Kunst, ich danke dir dafür!

Tradução para Português:
À música (Franz von Schubert)

Tu graciosa arte, em quantas cinzentas horas
Em que o selvagem círculo da vida me cerca,
Inflamaste o meu coração para novo amor,
Me desviaste para um mundo melhor!

Muitas vezes um suspiro da tua harpa se evolou
Um doce, sagrado acorde de ti
O céu de melhores tempos me abriu,
Tu graciosa arte, eu te agradeço por isso.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

"morire di fame": um excerto fílmico de Pasolini


Quando rodava A Paixão segundo S. Mateus, Pasolini produziu um curto filme intitulado "La ricotta", em 1962, que podemos traduzir por "o requeijão".
O filme de Pasolini é a transcrição ficcional de um filme em processo de realização, sob a direção de Orson Welles, sobre a Crucificação de Cristo. Assim, o que vemos neste filme é Welles a dirigir os seus atores, numa situação de mise-en-abîme, funcionando como moldura de um acontecimento passado que se transporta para a situação presente em que o povo se encontra: o catolicismo romano, em vez de força libertadora, é uma ruína de um passado que mantém a sua sobranceria de impiedade em face do povo miserável, pobre e excluído.
A própria epígrafe que surge no frontispício do filme de Pasolini marca desde logo a dimensão de crítica impiedosa ao catolicismo, heresia que valeu o encarceramento ao seu autor.
Transcrevo o diálogo que surge numa cena do filme (cerca do 23.30-24.15 minutos) entre o personagem que representa o povo - é o bom ladrão da narrativa bíblica, o seu nome é Stracci, o farrapo, que apenas quer comer, sobretudo o requeijão, porque está sempre com fome ao longo do filme e que, no fim, morre de indigestão - e o personagem que representa Cristo.

"- O bom ladrão (Stracci) – Tenho fome estou a ficar amaldiçoado.
- Cristo – Tens e eu deixo-te tê-la.
- O bom ladrão – És um Cristo Bom. Pensas que não tenho direito de me queixar?
- Cristo – Faz como queiras, mas eu não te levarei para o reino dos céus.
- O bom ladrão – Mas eu decidirei pelo reino da Terra.
- Cristo – Especialmente agora que o teu partido está no poder.
O bom ladrão – Como se o teu fosse melhor.
- Cristo – Eu não te levo. Tu estiveste sempre com fome, ainda estás com aqueles que te fazem passar fome.
– O bom ladrão – Alguns têm uma ocupação, outros, outra. A minha deve ser morrer de fome."

“Eu sou uma força do passado”, poema de Pasolini




Eu sou uma força do passado
Só na tradição está o meu amor.
Venho das ruínas, das igrejas,
das peças de arte de altar, das
aldeias abandonadas sobre os Apeninos ou sobre os pré-Alpes,
onde viveram os irmãos.
Deambulo pela Tusculana como um louco,
Pela Apia como um cão sem dono.
Ou olho os crepúsculos, as manhãs
sobre Roma, sobre a Ciociara, sobre o mundo,
como os primeiros atos da Pós-história,
aos quais assisto, por privilégio de registo civil,
da orla extrema de alguma idade
sepulta. Monstruoso é quem nasceu
das entranhas de uma mulher morta.
E eu, feto adulto, navego
mais moderno do que todos os modernos
a procurar irmãos que não existem mais.

Poesia de Pasolini, inserta no filme La Ricotta (O requeijão), e também na obra Poesia em forma de rosa, 1964

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

“As velhas negras”, poema de Gonçalves Crespo

Mulata Quitandeira, 1893-1905
Mulata Quitandeira, 1893-1905
Antônio Ferrigno (Itália, 1863-1940)
óleo sobre tela, 179X135cm
Pinacoteca do Estado de São Paulo

A Mmme Aline de Gusmão

As velhas negras, coitadas,
Ao longe tão assentadas
Do batuque folgazão.
Pulam crioulas faceiras
Em derredor das fogueiras
E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa
Esparge a lua formosa
A clara luz tropical.
Tremeluzem pirilampos
No verde-escuro dos campos
E nos côncavos do val.

Que noite de paz! que noite!
Não se ouve o estalar do açoite,
Nem as pragas do feitor!
E as pobres negras, coitadas,
Pendem as frontes cansadas
Num letárgico torpor!

E cismam: outrora, e dantes
Havia também descantes,
E o tempo era tão feliz!
Ai! que profunda saudade
Da vida, da mocidade
Nas matas do seu país!

E ante o seu olhar vazio
De esperanças, frio, frio
Como um véu de viuvez,
Ressurge e chora o passado
Pobre ninho abandonado
Que a neve alagou, desfez…

E pensam nos seus amores
Efêmeros como as flores
Que o sol queima no sertão…
Os filhos quando crescidos,
Foram levados, vendidos,
E ninguém sabe onde estão.

Conheceram muito dono:
Embalaram tanto sono
De tanta sinhá gentil!
Foram mucambas amadas,
E agora inúteis, curvadas,
Numa velhice imbecil!

No entanto o luar de prata
Envolve a colina e a mata
E os cafezais ao redor!
E os negros mostrando os dentes,
Saltam lépidos, contentes,
No batuque estrugidor.

No espaço e amplo terreiro
A filha do Fazendeiro,
A sinhá sentimental,
Ouve um primo-recém-vindo,
Que lhe narra o poema infindo
Das noites de Portugal.

E ela avista entre sorrisos,
De uns longínquos paraísos
A tentadora visão…
No entanto as velhas, coitadas,
Em
Cismam ao longe assentadas
Do batuque folgazão…-

Gonçalves Crespo, Obras Completas, Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1942



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ezra Pound, "With Usura"

É com grande comoção que escutamos este Canto XLV de Ezra Pound, cuja modulação litânica, na própria voz do autor, lhe confere uma acentuação dramática que o tinge de humanidade e de pungente verdade.
Trata-se de uma acusação virulenta contra a prática da usura levada a cabo pelo sistema financeiro: desvia o dinheiro da sua função nobre, que é estar ao serviço da criação da riqueza; viola as leis da natureza; e sobretudo é inimiga da grande criação artística e cultural.
O poema convoca-nos, pela voz de um poeta adivinho, a despertar para uma tomada de posição, esclarecida e democrática, contra a “epidemia da usura”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O conto “O cágado”, por Almada Negreiros

Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.
— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.
— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a quinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efetivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 Sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas-para-o-ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.

O conto “O cágado”, de Almada Negreiros: uma leitura política

Buscando encontrar indícios, implícitos ou explícitos, na obra literária de Almada que confirmassem a sua matriz política conservadora, que o pudessem vincular à ideologia do Estado Novo (ver o meu post sobre a sua criação das gravuras incisas na Faculdade de Direito de Lisboa), deparo-me com um conto, “O Cágado”, de 1921, onde essa matriz se encontra in nuce, manifestando-se abertamente na década de 30. Este encontro determinou-me a publicá-lo (ver post seguinte) e a esboçar uma leitura política do mesmo.
Espero não estar a fazer nesta interpretação uma projeção retrospetiva do que foram os compromissos posteriores de Almada, cuja explicação se prenda com outras razões, nomeadamente o desejo de projeção da sua obra no espaço público que, naquele momento, supunha a sua disponibilização de participação nos projetos artísticos lançados no âmbito da “política do espírito” (António Ferro) do Estado Novo. 
Do ponto de vista literário, o conto em causa permite aos seus leitores uma leitura de fruição, e isso deve-se por certo ao modo como as várias sequências da narrativa se dispõem, apanhando-nos sempre de surpresa pelo inesperado das ações e dos acontecimentos do único personagem da história: “um homem muito senhor da sua vontade.”
Era possível a partir desta narrativa admirável, tão pouco lida e estudada, mas tão rica enquanto criação literária, retomá-la como matéria de outras expressões artísticas, (cinema, b.d, etc.) e analisá-la em diferentes perspetivas de interpretação, nomeadamente políticas, tanto no âmbito da nossa história enquanto país colonizador como na conjuntura mais recente em que decorreu a vida do autor. Optando por este período, considero que o conto é uma alegoria política, cujos pressupostos pressupõem uma determinada ideologia em construção que a análise procurará esboçar.
“Era uma vez um homem…” marca o início da narrativa e ficamos desde logo instalados num topos recorrente do conto tradicional. E depois este homem vê um “cágado” e de repente deslizamos para o terreno da fábula. Ora um conto-fábula implica sempre uma moralidade que se propõe e outra que se recusa.
A partir daqui, surge um choque entre duas vontades: uma forte, a de “um homem muito senhor da sua vontade”, que pretende agarrar o cágado para o trazer à família como prova de que o viu; e uma vontade fraca, a do cágado, que desconfia da maldade do homem forte e que se esconde para escapar ileso.
E é esta desproporção entre uma força bruta e uma força fraca que é o motor da história: mas o cágado é esperto, foge, enquanto o homem é pura força sem pinta de razão. Ficam os dados lançados, que o desfecho da história confirma: quando à patologia da vontade, conhecida na nosografia por hiperbulia, se acrescenta a incapacidade da razão para ponderar os prós e os contras do que se deve fazer, não é de esperar na refrega o almejado sucesso. O animal, porque age em conformidade com o perigo eminente, vai sair vencedor, escapando-se e aparecendo no fim a celebrar. Invertem-se os papéis: o homem, todo volição e sem pinta de pensamento, age como um autómato, viola a lei da sua natureza que é de ser finito e ser pensante, logo, merece castigo; o cágado, advertido, age como a sua natureza lhe indica, e nisso está a sua verdade congruente, merece a recompensa de continuar a viver.
A patologia do homem tem manifestações diversas, em várias áreas. Ora, a perseguição do cágado, que é no conto enfaticamente hiperbolizada pelo esburacamento do diâmetro da terra à cata do animal reenvia-nos para um espaço de totalidade, que é o elemento onde se afirma a dominação da totalidade social: o Estado.
O mais grave é que, de regresso ao seu lugar natural, com a Europa entupida (alusão aos escombros da I Guerra Mundial), o homem da história continua a sua azáfama interminável, nada aprendendo na descida ao Hades. Neste sentido, a catábase nada tem a ver com as que conhecemos da literatura, onde o seu alcance era purificador e revelatório como dispositivo do discurso épico.
Aqui, celebra-se o dobre de finados de toda a épica, este homem da história é um anti-herói, como é monstruoso todo o Estado que se diz ao serviço dos cidadãos mas que se encontra ao serviço da vontade de dominação dos interesses pessoais. Se for pertinente a hipótese de que o âmbito a que o conto reenvia é a história política nacional daquele período, então é o voluntarismo republicano na sua vertigem de afirmação do poder que está a ser posto em causa.
No tempo em que o autor escreveu o conto, os Estados Europeus tinham-se envolvido na I Guerra Mundial, pondo a Europa a ferro e fogo, manifestando a falência dos princípios racionais da ordem democrática em que se legitimam e erodindo a desconfiança dos cidadãos nas instituições democráticas.
 Em Portugal, no mesmo período, sabemos o que foi a incapacidade dos dirigentes republicanos para ergueram um estado onde a democracia estivesse ao serviço do desenvolvimento e da emancipação dos cidadãos.
 Neste contexto, é plausível pensar que “o homem muito senhor da sua vontade” representa alegoricamente todos quantos estão centrados na autarcia absoluta das suas vontades e que da solidão dos seus gabinetes querem submeter tudo e todos: os políticos que se reivindicam dos princípios democráticos, que não pensam de acordo com aquilo que Weber chamou a ética da responsabilidade porque pensam apenas e só de acordo com a acanhada ética da convicção.
O cágado, de marcha lenta, de couraça resistente e esperto quando está em perigo é uma alegoria do povo sofredor, resistente, capaz de usar a astúcia para se sair bem das dificuldades. Esta interpretação reforça-se se fizermos a supressão do acento à palavra “cágado”, ficando com o plebeísmo corrente em português que indica alguém que está em apuros por estar lançado numa situação de dificuldade, muitas vezes provocado por alguém que o manieta e amedronta.
Almada Negreiros esboça assim, neste conto, uma crítica a um certo exercício do poder, aquele que tem por base o individualismo dos regimes liberais, de que a República em Portugal foi um exemplo, abrindo a possibilidade de construção de outro regime (aqui ainda não nomeado), em que o homem de vontade estivesse revestido de outros predicados e em que a relação com os cágados, sempre cágados, seria diferente. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

“Quem construiu Tebas de sete portas?” Bertolt Brecht

Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 
                        (Tradução de Paulo Quintela)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

O elogio da ciência por Bernardo de Claraval (século XII)

Pela sua importância para a nossa história e cultura, é sempre estimulante sentir que a celebração do mistério de Deus por Bernardo de Claraval se acompanhou do estudo da ciência e do compromisso na transformação do mundo pelo trabalho. Este estímulo hoje deve fazer-se a partir do valor absoluto do que é humano, sem a contaminação de qualquer intuito proselitista. O que não seria o caso de Bernardo.
Alguns pensamentos soltos sobre o valor do conhecimento:
- O zelo sem ciência é prejudicial mesmo onde há empenho de prestar serviço.
- A ciência sem caridade envaidece; a caridade sem ciência, erra.
- Não é desculpável ser ignorante, quando se faz profissão de ensinar as crianças.

O compromisso com a justiça: o exemplo de Platão

A reflexão política de Platão é certamente um ponto de vista filosófico, historicamente situado, sobre os requisitos necessários ao exercício do poder político numa ordem justa. Mas conserva uma imensa fecundidade se soubermos entender o espírito que lhe subjaz e não tanto os resultados a que chegou e as soluções que propõe para alcançar aquele objetivo.
Ora o espírito que anima a reflexão política de Platão deve ainda ser o nosso: a busca racional dos princípios éticos, se prosseguidos com a intenção de a eles aderir incondicionalmente, era a sua condição básica. A esta luz, só a presença no espírito da ideia de justiça torna possível exercer o poder político de um modo justo, para o benefício da comunidade.
O trabalho filosófico de Platão centrado na política não foi pensado por ele, assim, como um exercício exclusivamente teórico, uma vez que a sua destinação se encontrava enraizada na necessidade da conjuntura política em que viveu. Por isso, na República, o seu prisioneiro liberto da caverna, onde jazia agrilhoado de pés e mãos, após atingir o mundo real, não fica aí retido na sua contemplação, mas volta de novo à caverna para anunciar  aos companheiros o que tinha visto, de modo a propiciar a sua autolibertação. Este compromisso solidário com os companheiros, aprisionados nas suas ilusões e no primarismo dos seus interesses mesquinhos, continua a ser uma exigência moral para nós, hoje.
Alain Badiou, por exemplo, realça a importância da República em função do nosso contexto filosófico, traduzindo a Ideia de Bem de Platão pela Ideia de Verdade e a de Alma pela de Sujeito, de modo a relevar que é a incorporação do Sujeito pela Verdade que torna possível a atitude ética.
O próprio Platão viveu na sua vida real a mesma exigência deste prisioneiro: fez três viagens à Sicília, a Siracusa, para ajudar a erradicar a tirania aí existente, não por meios revolucionários mas pela educação de Dinis II (filho do tirano Dinis, o Antigo) em consonância com a sua filosofia. Mas este esforço foi debalde, pondo Platão na situação de residência fixa, sem ter autorização de sair da ilha, correndo o risco de morte.
Deixo uma breve passagem da Carta VII, onde Platão descreve este seu compromisso com esta situação concreta onde imperava a injustiça:
“Um homem justo, prudente e refletido, nunca pode subestimar completamente o carácter dos homens injustos, mas não espanta nada que ele sofra o destino do hábil piloto que não ignora a ameaça da tempestade, mas não pode prever a sua violência extraordinária e inesperada e tem de afundar-se.”
Carta VII, pp. 88-9, Cartas, Platão, Editorial Estampa, 1971, Lisboa
É tempo dos políticos, banqueiros e outros, que esqueceram que a verdadeira política é de inspiração ética, começarem a ler os clássicos e daí retirarem algum ensino para que a sua pilotagem não nos conduza ao naufrágio.