sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Íthaca


                                                             

ÍTACA
 

Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os sucitar diante de si.
Roga que sua rota seja longa,
que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egito - nas muitas cidades -
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar sua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

  Konstantinos Kaváfis, poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933
(Trad. Haroldo de Campos)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Que devemos fazer?

A resposta à questão para um cristão é esta, está no evangelho de hoje, que faço acompanhar de comentário, que retirei do portal dos Dehonianos.

EVANGELHO – Lc 3,10-18
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
as multidões perguntavam a João Baptista:
«Que devemos fazer?»
Ele respondia-lhes:
«Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma;
e quem tiver mantimentos faça o mesmo».
Vieram também alguns publicanos para serem batizados
e disseram:
«Mestre, que devemos fazer?»
João respondeu-lhes:
«Não exijais nada além do que vos foi prescrito».
Perguntavam-lhe também os soldados:
«E nós, que devemos fazer?»
Ele respondeu-lhes:
«Não pratiqueis violência com ninguém
nem denuncieis injustamente;
e contentai-vos com o vosso soldo».
Como o povo estava na expectativa
e todos pensavam em seus corações
se João não seria o Messias,
ele tomou a palavra e disse a todos:
«Eu batizo-vos com água,
mas está a chegar quem é mais forte do que eu,
e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias.
Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo.
Tem na mão a pá para limpar a sua eira
e recolherá o trigo no seu celeiro;
a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
Assim, com estas e muitas outras exortações,
João anunciava ao povo a Boa Nova».



MENSAGEM
A primeira parte do Evangelho de hoje (vers. 10-14) é uma secção própria de Lucas. Pôr as pessoas as perguntar “o que devemos fazer” é habitual em Lucas (cf. Act 2,37; 16,30; 22,10): sugere uma abertura à proposta de salvação que vem de Deus.
 João Baptista propõe, então, três atitudes concretas para quem quer fazer a experiência de conversão e de encontro com o Senhor que vem:
 - ao povo em geral, João Baptista recomenda a sensibilidade às necessidades de quem nada tem e a partilha dos bens;
- aos publicanos, pede que não explorem, que não se deixem convencer por esquemas de enriquecimento ilícito, que não despojem ilegalmente os mais pobres;
- aos soldados, pede que não usem de violência, que não abusem do seu poder contra fracos e indefesos…
Repare-se como João Baptista põe em relevo os “crimes contra o irmão”: tudo aquilo que atenta contra a vida de um só homem é um crime contra Deus; quem o comete, está a fechar o seu coração e a sua vida à proposta libertadora que Cristo veio trazer.

Na segunda parte do Evangelho (vers.15-18), João Baptista anuncia a chegada do batismo no Espírito Santo, contraposto ao batismo “na água” de João. O batismo de João é, apenas, uma proposta de conversão; mas o batismo de Jesus consiste em receber essa vida de Deus que atua no coração do homem, transforma o homem velho em homem novo, faz do homem egoísta e fechado em si um homem novo, capaz de partilhar a vida e amar como Jesus. Faz-se, aqui, referência a essa transformação que Cristo operará no coração de todos os que estão dispostos a acolher a sua proposta de libertação: começará, para eles, uma nova vida, uma vida purificada (fogo), uma vida de onde o pecado e o egoísmo foram eliminados, uma vida segundo Deus. Para Lucas, este anúncio do profeta João concretizar-se-á plenamente no dia de Pentecostes.

ATUALIZAÇÃO DA PALAVRA

• “E nós, que devemos fazer?” A expressão revela a atitude correcta de quem está aberto à interpelação do Evangelho. Sugere-se aqui a disponibilidade para questionar a própria vida, primeiro passo para uma efectiva tomada de consciência do que é necessário transformar.

• Os bens que temos à nossa disposição são sempre um dom de Deus e, portanto, pertencem a todos: ninguém tem o direito de se apropriar deles em seu benefício exclusivo. As desigualdades chocantes, a indiferença que nos leva a fechar o coração aos gritos de quem vive abaixo do limiar da dignidade humana, o egoísmo que nos impede de partilhar com quem nada tem, são obstáculos intransponíveis que impedem o Senhor de nascer no meio de nós. As nossas comunidades e nós próprios damos testemunho desta partilha que é sinal do Reino proposto por Jesus?

• Os publicanos eram aqueles que extorquiam dinheiro de modo duvidoso, despojando os mais pobres e enriquecendo de forma ilícita. Que dizer dos modernos esquemas imorais (às vezes lícitos, mas imorais) de enriquecimento rápido? Que dizer da corrupção, do branqueamento de dinheiro sujo, da fuga aos impostos, das taxas exageradas cobradas por certos serviços, das falcatruas? Será possível prejudicar conscientemente um irmão ou a comunidade inteira e acolher “o Senhor que vem”?

• “Não exerçais violência sobre ninguém”…E os atos de violência, que tantas vezes atingem inocentes e derramam sangue ou, ao menos, provocam sofrimento e injustiça? E os atos gratuitos de terrorismo, ainda que sejam mascarados de luta pela libertação? E a exploração de quem trabalha, a recusa de um salário justo, ou a exploração de imigrantes estrangeiros? E as prepotências que se cometem nos tribunais, nas repartições públicas, na própria casa e, tantas vezes, nas receções das nossas igrejas? Neste quadro, é possível acolher Jesus?

• Ser cristão é ser batizado no Espírito, quer dizer, é ser portador dessa vida de Deus que nos permite testemunhar Jesus e a sua proposta. O que é que conduz a nossa caminhada e motiva as nossas opções – o Espírito, ou o nosso egoísmo e comodismo?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Tornemos a Europa mais democrática! , por Jürgen Habermas

A UE tem vindo a adotar um conjunto medidas de coordenação mais estreita com os governos nacionais, de modo a construir uma maior integração económica, monetária, orçamental e política e a contribuir para alavancar o crescimento e o emprego. Por exemplo, tem legislado para melhorar a fiscalização e o controlo dos orçamentos e da dívida pública dos países da UE e para intensificar a fiscalização nos países da Zona Euro com défices orçamentais excessivos. Mas este afã legislativo é tomado pelas elites, longe dos cidadãos, como se um governo de regras fosse suficiente para a construção de uma Europa democrática.


O filósofo Habermas escreveu um artigo “Europa am Scheideweg”, publicado no jornal Handelsblatt a 17 de Junho de 2011, que foi traduzido e publicado no Le Monde a 26 de Outubro, sob o título “Rendons l’Europe plus démocratique.Dada a relevância e a atualidade do texto, que visa contribuir para um repensar do funcionamento da UE tendo em vista um aprofundamento da democracia europeia, decido republicá-lo, a partir de tradução do texto francês, dado não ter tido a divulgação que merecia no nosso meio.

“A  curto prazo, a crise requer uma muito  maior atenção. Mas para além disto, os atores políticos não deveriam esquecer os defeitos de construção que estão na base, nos fundamentos,  da união monetária e que não poderão ser levantados de outro modo que não seja através de  uma união política adequada: falta à União Europeia as competências necessárias para a harmonização das economias nacionais, que apresentam divergências drásticas nas suas capacidades de concorrência.

“O Pacto para a Europa” de novo reforçado não faz nada mais do que  reforçar um já velho defeito: os acordos não vinculativos no círculo dos chefes de governo são  ou sem nenhum efeito  ou não são democráticos, e devem por esta razão ser substituídos por uma institucionalização incontestável das decisões comuns. O governo federal alemão tornou-se o acelerador de uma dessolidarização  que atinge  toda a Europa, porque durante muito tempo tem fechado os olhos em face  da única saída construtiva que até mesmo o “Frankfurter Allgemeine Zeitung” tem entretanto descrito pela fórmula lacónica: “Mais Europa”. Todos os governos em causa se encontram   desamparados e paralisados  perante o dilema entre por um lado os imperativos dos grandes bancos e das agências de notação e, por outro lado, o seu temor perante a perda de legitimação que os ameaça junto da sua população frustrada. O incrementarismo  insensato  está a trair  a falta de uma perspetiva mais vasta.

Desde o momento  em que o embedded capitalism terminou e que os mercados globalizados da política se dissiparam,  e torna-se cada vez mais difícil para todos os Estados da OCDE estimular o crescimento económico e garantir  uma justa repartição do rendimento  bem como garantir a Segurança  Social à  maioria da população. Depois  do desaparecimento das taxas de câmbio fixas, este problema foi desativado pela aceitação da inflação.  Sendo dado que  esta estratégia provoca custos elevados, os governos utilizam cada vez mais a escapatória das participações nos orçamentos públicos financiadas pelo crédito.

A crise financeira que dura desde 2008 também fixou o mecanismo da dívida estatal às custas  das gerações futuras; e, entretanto , não se vê como é que  as políticas de austeridade – difíceis  a impor em política interna – poderiam ser  colocadas  em acordo sobre  o longo prazo com a manutenção do nível de um Estado social suportável. As revoltas da juventude são uma advertência das ameaças que pesam sobre a paz social. Pelo menos, reconheceu-se, nestas circunstâncias, que o desequilíbrio entre os imperativos do mercado e a capacidade reguladora da política é  o verdadeiro desafio a enfrentar. Na zona euro, um esperado “governo económico” deveria voltar a dar uma força nova ao pacto de estabilidade desde há  muito tempo esvaziado.

As representações “de um federalismo executivo” de um tipo específico refletem o temor das elites políticas em  transformar o projeto europeu, até aí  praticado para lá das  portas fechadas, num combate de opinião ruidoso e argumentado, obrigando a arregaçar as mangas e que seria público. Perante o peso dos problemas, esperar-se-ia  que os políticos, sem perda de tempo e sem   condições pusessem as cartas  europeias  sobre mesa a fim de se ilustrar   de maneira intensiva e empenhada  à  população a relação entre os custos a curto prazo e a sua verdadeira utilidade, ou seja sobre o significado histórico do projeto europeu.

Deveriam ultrapassar  o seu medo das sondagens sobre o estado da opinião pública e terem  confiança na capacidade  de persuasão dos  bons argumentos. Em vez disso,  degradam-se com um populismo que eles mesmos favoreceram pela ocultação de um tema complexo e mal-amado.  Sobre o limiar entre a unificação económica e a união política da Europa, a política parece reter o seu fôlego  e meter a cabeça debaixo dos ombros . Porquê  esta paralisia? É uma perspetiva mergulhada no século XIX  que impõe a resposta conhecida do demos: não existiria povo europeu; é por isso que uma união política que mereça este nome está  construída  sobre a areia. A  esta interpretação, quereria eu contrapor uma outra: a fragmentação política duradoura no mundo e na Europa está em contradição com o crescimento sistémico  de uma sociedade mundial multicultural, e bloqueia todo e qualquer progresso na civilização jurídica constitucional das relações de poder estatais e sociais.

 Sendo dado que até aí a UE foi levada e monopolizada  pelas elites políticas, uma perigosa assimetria daí resultou – entre a participação democrática dos povos com os benefícios que os seus governos “daí retiram” para eles mesmos sobre a cena afastada de Bruxelas, e a indiferença, ou mesmo a ausência de participação dos cidadãos da UE tendo em conta as decisões do seu Parlamento em Estrasburgo. Esta observação não justifica um substancialização “dos povos”. Só o populismo de direita continua a projetar a caricatura de grandes temas  nacionais que se fecham uns aos outros e bloqueiam qualquer formação de vontade que exceda as fronteiras. Depois de  cinquenta anos de imigração do trabalho, os povos estatais europeus, perante o seu crescente pluralismo étnico, de linguagem e religioso, não podem continuar a imaginarem-se como sendo unidades culturais homogéneas. E a Internet torna todas as fronteiras porosas. Nos estados territoriais, foi necessário começar por instalar o horizonte fluido de um mundo da vida partilhado sobre os grandes espaços e através de relações complexas, e preenchê-lo por um contexto comunicacional que é da competência da sociedade civil, com o seu sistema circulatório de ideias. É evidente que isso se  pode fazer  apenas no âmbito de uma cultura política partilhada que continua a ser  bastante vaga. Mas mais as populações nacionais tomam consciência, e mais os meios de comunicação social levam à consciência  a que  profundidade as decisões da UE influenciam sobre o seu dia a dia , mais crescerá o interesse que encontrarão em  fazer igualmente uso dos seus direitos democráticos como cidadãos da União.
Este factor de impacto tornou-se tangível na crise do euro. A crise força também, de má vontade, o Conselho a tomar decisões que podem pesar de maneira desigual sobre os orçamentos nacionais. Desde o dia 8 de Maio de 2009, este ultrapassou um limiar pelas suas  decisões de resgate  e de possíveis modificações da dívida, assim como por declarações de intenções com o propósito de uma harmonização em todos os domínios que têm a ver com a concorrência (em política económica, fiscal, de mercados de trabalho, social e cultural).
Para além deste limiar levantam-se  problemas de justiça na repartição do rendimento , porque com a passagem de uma integração “negativa” a  uma integração “positiva”, os pesos deslocam-se de uma legitimação do seu output  para  uma legitimação nos seus inputs . Seria por conseguinte conforme com a lógica deste desenvolvimento que os cidadãos estatais que devem sofrer as mudanças de distribuição dos encargos  para além das fronteiras nacionais, tenham a vontade de influenciar democraticamente, no seu papel de cidadão da União, sobre o que os seus chefes de governo negociam ou decidem numa zona jurídica cinzenta.

Em vez disto,  verificamos táticas dilatórias pelo lado dos governos, e uma rejeição de tipo populista  do projeto europeu como um todo pelo lado das populações. Este comportamento auto-destruidor explica-se pelo facto de as elites políticas e os meios de comunicação social hesitarem em  tirar as consequências razoáveis do projeto constitucional. Sob a pressão dos mercados financeiros impôs-se a convicção de que, aquando da introdução do euro, um pressuposto  económico do projecto constitucional tinha sido negligenciado. A EU não pode afirmar-se contra a especulação financeira a não ser que obtivesse as competências políticas de orientação que são necessárias para garantir pelo menos no coração da Europa, ou seja entre os membros da zona monetária europeia, uma convergência do desenvolvimento económico e social.

Todos os participantes sabem que este grau “de colaboração reforçada” não é possível no âmbito dos tratados existentes. A consequência “de um governo económico” comum, que tanto satisfaz  também o governo alemão, significaria que a exigência central da capacidade de concorrência dos países da Comunidade Económica Europeia se estenderia bem para além das políticas financeiras e económicas até aos orçamentos nacionais, e interviria até ao ventrículo do coração, nomeadamente no que diz respeito ao direito orçamental dos Parlamentos nacionais.

Se o direito válido não deve ser transgredido, de maneira flagrante, então esta reforma em sofrimento só é possível se for feita através de uma transferência de outras competências dos Estados-Membros para a União. Ângela Merkel e Nicolas Sarkozy concluíram um compromisso entre o liberalismo económico alemão e o estatismo  francês que tem todo um  outro conteúdo. Se vejo a questão de modo correto, estes  procuram consolidar o federalismo executivo implicado no tratado de Lisboa numa dominação intergovernamental do Conselho da Europa que é contrária ao próprio tratado. Tal regime permitiria transferir os imperativos dos mercados para os orçamentos nacionais sem nenhuma legitimação democrática própria.
Para o efeito, seria necessário que acordos concluídos na opacidade, e desprovidos de forma jurídica, sejam impostos através de ameaças com  sanções e de pressões sobre os Parlamentos nacionais privados do seu poder. Os chefes de governo transformariam assim desta maneira o projeto europeu no seu contrário: a primeira comunidade supranacional democraticamente legalizada tornar-se-ia num arranjo efetivo, porque oculto, de exercício de uma dominação pós-democrática. A alternativa encontra-se na continuação consequente da legalização democrática da UE. Uma solidariedade assente na cidadania  que se estenda a toda a  Europa não se pode formar  se, entre os Estados-Membros, ou seja nos possíveis pontos de rutura, se consolidam as desigualdades sociais entre as nações pobres e as nações ricas.

A União deve garantir o que a Lei fundamental da República Federal Alemã  considera  (art.. 106, parágrafo 2): “a homogeneidade das condições de vida”. Esta “homogeneidade” liga-se somente  a  uma estimativa das situações de vida social que sejam aceitáveis do ponto de vista da justiça de repartição e  não  estão  ligadas a nenhum nivelamento das diferenças culturais. Ora, uma integração política apoiada sobre o bem-estar social é necessária para  que a pluralidade nacional e a riqueza cultural do habitat  “da velha Europa” possam ser protegidas do nivelamento de uma globalização com uma progressão de tensão.”

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Verdade e justiça: da utopia à bruta realidade




Luca (pensativo para Bubnov):  - “Tu dizes: a verdade … Mas isso nem sempre é remédio para todos os males … A alma nem sempre se cura com a verdade… Conheço um caso: havia um homem que acreditava na existência de uma terra da verdade e da justiça …
Bubnov : - Em quê?
Luca: Numa terra da verdade e da justiça … “Deve haver no mundo”, dizia ele, “uma terra dessas onde vivem homens especiais … homens bons… que se estimam uns aos outros, e se ajudam, de uma maneira decente …” Entre eles tudo iria bem.. E então pensava partir à procura dessa terra da verdade. Era pobre, vivia mal, mas mesmo nos piores momentos, quando quase não tinha forças para viver, mesmo assim, não perdia a coragem … “Não é nada”, dizia ele, com um sorriso, “isto há-de passar… terei ainda um pouco de paciência, depois abandonarei tudo isto e partirei para o país da verdade …” Era essa a sua única alegria, a sua única esperança – a tal terra da verdade …

Pepel: - E foi lá?
Bubnov: - Onde? Oh! Oh!
Luca: - E então um dia chegou a esses sítios – era na Sibéria – um deportado político, um sábio … que vinha cheio de livros e mapas e uma quantidade de coisas parecidas … Foi então que o meu bom do homem disse ao sábio: “Mostra-me aí, se faz favor, onde está afinal a terra da verdade e qual é o caminho que lá conduz?” O sábio abriu imediatamente os livros, desdobrou os mapas… procurou, procurou…“Não há país da verdade em parte nenhuma. Tudo aí está anotado, todos os países indicados, mas da terra da verdade e da justiça, nada ...”
Pepel: - E então? Então não existe?
                                     (Bubnov ri às gargalhadas)
Cala-te!... E depois avô?
Luca: - O nosso homem não o acreditava … “Deve haver”, dizia ele … “procura melhor… Senão, os teus livros e mapas são bons para deitar fora, se lá não está a terra da verdade …” O sábio ofendeu-se com isto … “Os meus mapas”, disse ele, “são os mais exatos de todos e a terra da verdade não existe.” Então o homem zangou-se. “Como assim? Vivi todo este tempo!... Todo este tempo sofri! A minha única fé era que a terra da verdade existia, e agora os mapas dizem que não! Isto é um roubo! ...” Volta-se para o sábio e diz-lhe: “Ah! Devasso! Um sábio, tu? ... Um gatuno, sim!... Toma para ti!...” E põe-lhe um olho negro! Pan! Pan! (Após um momento de silêncio) Depois voltou para casa e enforcou-se…”

(cf. Máximo Gorki, Albergue Noturno, Ed. Europa-América, pp. 131-4)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A concentração desproporcionada de poder económico e financeiro no mundo



Riqueza: Os 10% de elementos mais ricos da população possuem 85% da riqueza mundial. E, mais, os dados disponíveis sugerem que existe uma segunda regra “80/20” (princípio de Pareto, segundo o qual 80% das consequências provêm de 20% das causas) no seio da regra “80/20” (entre os mais ricos, há alguns que ainda são mais ricos): os mais ricos de todo o mundo são cerca de dois por cento e possuem metade da riqueza mundial. Os bilionários do mundo, que são menos de 0, 000015 por cento da população, possuem uma riqueza que é quase o dobro da que possuem os 50% mais pobres.

Finança: As 100 instituições financeiras internacionais de topo gerem quase 43 triliões de dólares, o que equivale a cerca de um terço dos ativos financeiros de todo o mundo. Dos 10000 fundos de investimento de elevado risco existentes no mundo, os primeiros cem, só um por cento, controlam 60% dos dois triliões de dólares de ativos financeiros do sector. Um investidor, a Fidelity, com quase dois triliões de dólares de ativos, é proprietária de 10 por cento, ou mais, de 100 das maiores empresas da América.

Empresas: As maiores 250 empresas do mundo têm vendas anuais superiores a 14 triliões de dólares, o que equivale a cerca de um terço do PIB global. As duas mil maiores empregam mais de 70 milhões de pessoas em todo o mundo”.

PS. - Esta síntese da concentração do poder económico e financeiro mundial foi retirada do livro de David Rothkopf, Superclasse, Editora Quidnovi, 2008, p. 384.
Este autor indica a fonte dos dados estatísticos que apresenta, sendo um datado de 2006 e os restantes de 2007.
É provável que a situação atual tenha sofrido algumas variações, mas a sua estrutura não será significativamente diferente.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

“O festim da aranha”, por Alan Greenspan (Presidente do FED): paródia



2ºAndamento: o festim estragado

O narrador a braços com o seu malogro faz a seguinte confissão:
“Eu fiz um erro ao pensar que as organizações movidas pela busca do seu próprio interesse privado, em particular os bancos e as outras organizações deste género, eram, por esta razão, as melhores colocadas para proteger os seus acionistas e os seus investimentos.
[…] Algo que parecia um edifício muito sólido, e mesmo um pilar fundamental da concorrência e dos mercados livres, desmoronou-se. Eu fiquei chocado.
[…] Descobri uma falha na minha ideologia. Eu não sei em que grau ela é significativa e permanente, mas fiquei muito angustiado por isso. […] Eu descobri um erro no modelo que eu pensava que explicava a estrutura fundamental do funcionamento do mundo tal como ele é."
« I made a mistake in presuming that self-interest of organizations, specially banks and others, were such is that they were best capable of protecting their own share-holders and their equity in the rms […]
So the problem here is something which looked to be a very solid edice, and, indeed, a critical pillar to market competition and free markets, did break down […] I found a aw [in my ideology].
 I don’t know how signicant or permanent it is, but I have been very distressed by that fact […] found a aw in the model that I perceived is the critical functioning structure that denes how the world works, so to speak. »
(Discurso de Alan Greenspan em audição numa Comissão Parlamentar do Congresso, de 23 de Outubro de 2008)
Esta autocrítica de Greenspan acontece quando a crise financeira de 2008 estava já em marcha. Esta crise vem colocar, no terreno do pensamento e da política económica, a questão da legitimidade da “revolução liberal” posta em marcha a partir de Thachter (1979) e de Reagan (1981), de que Greenspan foi um protagonista privilegiado pelo cargo que exerceu na Reserva Federal dos EUA durante cinco mandatos presidenciais (de 1987 a 2006). Este protagonismo pode ver-se a dois níveis.
Por um lado, Greenspan é um ideólogo militante, um partidário do liberalismo (na versão neo) e da eficiência dos mercados, considerando nefasta toda a intervenção do Estado neste domínio. Por isso diz: “nada na regulação federal a torna superior à regulação dos mercados”.
Por outro lado, Greenspan teve um papel central à frente da Reserva Federal na desregulação do sistema financeiro, de que a Lei da Modernização dos Serviços Financeiros é um exemplo maior.
O saldo extremamente negativo deste ciclo mostra que as premissas em ele assentou são erradas, logo não servem de base a um crescimento económico estável, favorável à edificação de uma sociedade mais justa. Como consequência, continuar a pensar que as crises financeiras são anomalias reguláveis no âmbito do mercado é esquecer a natureza estrutural daquelas. Assim, só através da existência de uma instituição regulatória, em permanente processo de informação e de avaliação, é possível o exercício de um controlo do sistema que o contenha dentro de limites aceitáveis.  
Sobre o legado questionável de Alan Greenspan, pode ler-se online o paper do economista Thomas Palley: [PDF]The Questionable Legacy of Alan Greenspan.

“O festim da aranha”, por Alan Greenspan (Presidente do FED): paródia


1ºAndamento: o festim no seu processo

Havia um jardim. A um canto, semi-escondido, uma aranha tecia a sua teia na vertical, para apanhar metodicamente os insetos dançarinos. O festim brilhava-lhe nos olhos. Mas algum descuido ou imprevisto se abateu sobre a sua estratégia: ela fica presa na teia e vai ser devorada pelo louva-a-deus.
Assim se desenvolve o ballet pantomima de Roussel, criado em 1913, grandiosa alegoria sarcástica dos apetites humanos. Este tema já fora tratado nas Metamorfoses de Ovídio (VI, 1-145): a perfeição da arte de Arachne era um desafio ao brio da deusa Minerva, que se vingou matando-a.
Já nos nossos dias, Alan Greenspan deu à estampa, sob a forma de lei, um pastiche destas obras. Mas agora a notação da música aparecia em dólares e a pantomima era para ser representada, acto contínuo, no espaço virtual em que se movem, como fantasmas, os vários agentes dos mercados financeiros: bancos, companhias de seguros, firmas de investimento, aplicações imobiliárias e similares.
Mas quem é Alan Greenspan? É um economista norte-americano que ocupou o cargo de Presidente da Reserva Federal, desde 1987, por nomeação de Reagan, sendo sucessivamente reconduzido por Clinton e por Bush, até 2006, o que totaliza 19 anos.
Durante este período deve-lhe todo um vasto leque de decisões que foi tomando no sentido contribuir para a liberalização dos mercados, de modo a facilitar a concorrência das empresas americanas no mercado mundial.
No fim deste período, escreveu as suas Memórias, que surgiram em livro intitulado A era da turbulência, com data de 2007, que narra a história do “festim da aranha” em que participou ativamente, do qual retiro o seguinte excerto:
“No Outono, Larry Summers e eu tivemos de resolver uma guerra de competências entre o Tesouro e o FED. Fora desencadeada por uma moção do congresso que propunha a revisão das leis que governavam o setor financeiro americano: bancos, companhias de seguros, firmas de investimento, aplicações imobiliárias e similares.
Depois de anos de preparação, a “Lei de Modernização dos Serviços Financeiros” ( Finantial Services Modernization Act) tomou a forma na Lei Glass Steagal [já referido no post “as boas intenções e a especulação financeira”], uma lei do tempo da Depressão que limitava a possibilidade de os bancos e as companhias de seguros entrarem em negócios comuns.
Os bancos e as outras empresas pretendiam diversificar-se, queriam, por exemplo, instalar lojas em que aparecessem diversos serviços financeiros. Argumentavam estar a perder terreno para concorrentes estrangeiros, especialmente para os “bancos universais” europeus e japoneses, que não estavam sujeitos a restrições deste tipo. Eu concordava que a liberalização destes mercados já devia ter sido feita havia muito tempo.
(…) A versão da proposta de Reforma apoiada pelo Senado atribuía a responsabilidade ao FED. A versão da Câmara dos Representantes favorecia o Tesouro. (…) As equipas do FED e do Tesouro iniciaram as negociações, mas não se entenderam. Então, dá-se o encontro de Larry e de Greenspan: “Temos de resolver isto!”
(…) O Tesouro e o FED elaboraram um projeto de lei conjunto e fomos ao Capitoll Hill nesse mesmo dia: o projeto foi aprovado.
Os historiadores considerarão a Lei da Modernização dos Serviços Financeiros como um marco na legislação reguladora de empresas e eu nunca deixarei de a recordar como um momento de tomada de decisões que, embora não publicitado, seria digno de alguns elogios.
A expansão continuou num crescendo (…) no fim de Dezembro o valor do mercado de ações NASDAQ quase duplicara em dois meses (o Dow cresceu 20%) Na sua maioria, as pessoas que haviam investido em ações sentiam-se contentes e tinham motivos para isso”
(Cf. Alan Greenspan, A era da Turbulência, Ed.Presença, 2007, pp. 220-1)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Portugal e Luxemburgo: a não-comensurablidade II


Histoire de l'immigration au Luxembourg
 (blog de www.diversite.eu (accueil))  
                                   
Migration et prospérité

     Il est cependant un fait que les étrangers, qui représentent plus de 50 % ( en 2011 le Luxembourg compte 221 364 résidents étrangers pour une population totale de prés de 512 000 habitants (source : Statec 2011), des salariés au Luxembourg, contribuent de façon substantielle à ce que l’économie luxembourgeoise, affichant l’une des croissances les plus fortes de l’Union européenne, continue à être florissante. Pratiquement personne ne conteste plus que l’économie nationale s’effondrerait en très peu de temps si elle était privée de sa main-d’oeuvre étrangère et qu’il existe une étroite relation entre les migrations et la prospérité économique du pays. Le rendement du travail des étrangers contribue à maintenir le produit intérieur brut luxembourgeois par habitant à un niveau pratiquement deux fois plus élevé que celui de la moyenne de l’Union européenne.

     De plus, les étrangers participent au maintien du réseau social luxembourgeois, alimenté en grande partie par leurs cotisations et leurs impôts. Grâce à eux, il est possible de continuer à financer les retraites et les pensions. Sans oublier que le taux de natalité plus élevé des concitoyens étrangers est le seul facteur à contribuer actuellement à un développement démographique positif au Luxembourg. Mais qu’ont donc en commun le banquier bruxellois, la vendeuse de chaussures lorraine qui traverse deux fois par jour la frontière franco-luxembourgeoise, le jardinier portugais établi au Luxembourg depuis des années, son épouse qui travaille comme aide-ménagère, la traductrice finlandaise employée auprès des institutions européennes, le cardiologue iranien, le marchand de meubles danois, l’administrateur de sites web polonais, le mécanicien de garage croate et le restaurateur indien mis à part le fait que, du moins temporairement, ils ont fait du Luxembourg leur port d’attache ?



O Estado Social de Portugal e o do Luxemburgo: a não-comensurabilidade



O Suplemento “Dinheiro Vivo” do DN, de 24 de Novembro último, traz o artigo “FMI dá exemplo do Luxemburgo na reforma do Estado social da Europa”, da autoria de Luis Reis Ribeiro.

Este conselho do FMI levou-me a colher alguns indicadores de modo a entender mais um pouco sobre o assunto:
: O Luxemburgo tem o mais elevado PIB per capita: 2,5 vezes acima da média da União Europeia
: as despesas de proteção social em 2010 foram 2 vezes mais elevadas do que a média europeia;
: é o país da EU com o mais elevado nível de consumo efetivo individual.


Se compararmos o valor do nosso PIB e das nossas despesas sociais com a média da EU, que conclusões podemos tirar?

4º: indicador (significativo para as famílias): o abono de família com escalonamento no Luxemburgo (a partir de 1 de Setembro de 2012):
- 1 filho: 185, 60 Euros (mensais); 
- 2 filhos: 440, 72 Euros;
-  3 filhos: 802, 74Euros;
- 4 filhos: 1164, 56Euros;
- 5 filhos: 1528, 38Euros.   


É esta a situação em Portugal:



* Deve referir-se que no Luxemburgo o montante dos abonos de família não é modulado em função do rendimento das famílias nem se encontra plafonado, ao contrário do que acontece em Portugal.

Comparemos agora a distribuição dos abonos de família em alguns Estados da UE, de acordo com dados de 2005 do Eurostat:

A percentagem do PIB em 2005 por país era a seguinte:
- Alemanha: ………………………………………………….2,3% do PIB;
 - Aústria: ……………………………………………………2,2% do PIB;
- Luxemburgo: ……………………………………………....2, 0% do PIB
- Portugal:…………………………………………………… 0,5% do PIB



As despesas com abonos de família por habitante, expressas pelo standard do poder de compra:
                                                          Despesa por Habitante (em SPA)
- Alemanha:        …………………………......................593,4   Euros                
 - Aústria: ………………………………….....................629,6 Euros
- Luxemburgo: …………………………........................1188,5 Euros
- Portugal:  ……………………………….........................79, 3 Euros

Basta que se atente nestes dados muito parcelares (se fôssemos para outros, só se confirmaria a mesma discrepância!) para vermos o Estado Social que temos em comparação com o que corre pelo Luxemburgo e por outros países da União Europeia.
Então, cumpramos o conselho do FMI, só temos todos ganhar (nós e as gerações futuras) com tomar o Luxemburgo como referência, não para reduzir o nosso - isso talvez eles possam fazer - mas para reforçar o nosso para que as disparidades diminuam.. 
Também neste domínio social não queremos ser os Cafres da Europa. Nem ter de  demandar as paragens do Grão Ducado como o El Dorado onde a nossa sede de justiça social se faça cumprir!



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Sair da Caverna", por Viriato Soromenho Marques

“A alegoria da caverna de Platão talvez nos ajude a perceber a complexa opacidade do tentacular mundo financeiro contemporâneo.
Um recente estudo do FSB (Financial Stability Board) - uma organização estabelecida em abril de 2009 por alguns dos maiores bancos centrais do planeta - revela a desmesura das instituições que se dedicam a operações de crédito semelhantes à da banca regular, só que sem se submeterem às mesmas normas de regulação e supervisão da banca formal.
Na verdade, calcula-se que atualmente a shadow banking [instituições financeiras não bancárias e cuja atividade se escapa à regulação]  corresponda a 67 biliões de dólares (111% do PIB mundial!), uma brutal subida numa década, a partir dos 26 biliões de 2002. A crise financeira de 2008, causou apenas um pequeno atrito, logo corrigido por novas subidas. Mais de um quarto de todas as operações de crédito pertence a estas entidades, cujo peso é sobretudo relevante nos EUA (23 biliões), na Zona Euro (22 triliões) e no Reino Unido (9 biliões).
Para os milhões de desempregados da Zona Euro, para os milhares de empresários portugueses, irlandeses e espanhóis que não encontram crédito para os seus negócios à luz do dia, que iriam criar emprego e pagar IRC, este oceano de liquidez, de uma diáfana legalidade, não deixará de ser uma espécie de dolorosa metáfora acerca de quem manda no mundo. Massas de capital desta dimensão, flutuando quase sem barreiras, estabelecendo conexões portadoras de risco sistémico para a economia real, constituem uma espécie de híper-leviatã financeiro que seduz ou devora os tímidos poderes políticos nacionais. Compromete a sua eficácia. Compra a alma de muitos dos seus atores. Faz da integridade das instituições, às vezes, uma mera caricatura.
Platão já nos prevenira, há 2500 anos. Olhar a verdade de frente faz doer os olhos.”
(Cf. “Opinião”, in Diário de Notícias, 29 de Novembro de 2012)

Adenda:
A FSB inclui também, para além dos representantes dos bancos centrais de 12 nações mais industrializadas (EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, etc.), ministros das finanças e reguladores.
O seu papel consiste em monitorizar e produzir recomendações que contribuam para a regulação financeira internacional.
Com estes dados, oriundos de quem sabe do que fala, é necessário avançar para uma decisão vinculativa, tomada no âmbito da Nações Unidas, que estabeleça um norma proibitiva das práticas do shadow banking, por um lado, e que faça a taxação das transações financeiras internacionais, revertendo esse produto a favor da erradicação da pobreza e da ajuda ao desenvolvimento.      


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Daniel Kahneman: um abalo na escola neoclássica da economia

Ilustração de Francisco Martins

 A editorial Temas e Debates publicou este ano a obra Pensar, Depressa e Devagar, de Daniel Kahneman. Este autor foi laureado em 2002 com o Prémio Nobel da Economia, mas a sua formação é na área da psicologia cognitiva, centrando-se no campo do juízo e da tomada de decisão.
Por esta razão, a obra é importante para um economista porque a teoria da decisão aqui exposta, designada “teoria da prospetiva” (“prospect theory”) vem falsificar  substancialmente os pressupostos da teoria económica hegemónica, de raiz neoclássica.
A teoria considera que há dois sistemas de pensamento, que agem na tomada de decisão: o sistema 1, rápido, automático, associativo e praticamente fora de controlo; e o sistema 2, lento, controlável, de encadeamento serial e passível de regulação.
Em muitas situações (por ex., a pressão do tempo para a tomada da decisão), o sistema 2 não é ativado, ou se é, sofre modificações derivadas de informações que se introduzem no sistema 1.
A partir deste quadro, a tomada de decisão deixa de obedecer à conceção determinista imanente ao modelo teleológico em que funciona a teoria da ação da escola neoclássica da economia. Por isso, na explicação da decisão tem de ser tomada em linha de conta as componentes da subjetividade humana (crenças, valores, experiência, memória).
A teoria da ação da escola neoclássica de economia (Menger, Pareto, Walras, Hicks, Allen, Samuelson) tem sido o paradigma de pensamento, na macro como na microeconomia. Os dois conceitos básicos a partir dos quais se estruturou a teoria são: utilidade e racionalidade.
Ora, definir a ação a partir da de utilidade que se pretende alcançar é desde logo optar por um modelo explicativo daquela de tipo teleológico e consequencialista.
O conceito de utilidade é interpretado naquela escola em termos de índice de preferências e não em termos de satisfação orientada à obtenção do prazer (posição hedonista de Bentham), minimizando a dor.
A preferência na teoria neoclássica é descrita em função de três critérios: a atitude mental do agente em face das alternativas; o desejo de maximização da satisfação a alcançar; a dimensão pessoal, que torna impossível recorrer a qualquer explicação racional, baseada numa conformação comum do pensamento dos agentes ou numa normatividade socialmente determinada.
O conceito de racionalidade não pode, pelo que se disse da “a-racionalidade” das preferências individuais, ser definido teleologicamente. Por isso, a racionalidade passa a ser definida não em termos substantivos (como a justificação dos fins a alcançar) mas em termos instrumentais.
 Assim, a racionalidade na teoria neoclássica consiste na ordenação coerente, por parte do agente, tanto das várias alternativas da sua ação como dos meios de que dispõe para alcançar cada uma delas, como a relação de cada meio com as finalidades que com ele se alcançam.  
É a racionalidade do agente que lhe permite: selecionar e deliberar quanto aos meios adequados e ao seu uso eficiente; selecionar os fins que se podem alcançar em função dos meios disponíveis; derivar os fins da escolha dos meios a utilizar para a sua consecução.
Este modelo de racionalidade do agente da teoria neoclássica não resiste à abordagem científica de Daniel Kahneman e de Amos Tversky, pois eles comprovaram experimentalmente que, nas situações de escolha, não se inclui a avaliação dos acontecimentos incertos de acordo com as leis da probabilidade, nem tampouco se segue a teoria da maximização da utilidade esperada.
Tal facto deve-se ao facto de as pessoas terem uma compreensão distorcida dos fenómenos probabilísticos, avaliando a situação não em função da variável da utilidade esperada (segundo o modelo finalista da teoria da ação) mas em função da experiência de se ganhar ou perder.
Tomemos uma situação específica de incerteza: numa série de ganhos reduzidos mas certos e de ganhos elevados mas incertos, preferimos normalmente não arriscar e optar pelos ganhos reduzidos mas seguros; e numa série de perdas, optamos por arriscar, mesmo com uma pequena probabilidade, quando enfrentamos perdas elevadas. Ocorreu aqui o que Kahneman designou por “reversão de preferências”: os ganhos tornam os agentes mais conservadores e as perdas mais ousados.
Este último aspeto entra mesmo em contradição com a ideia de que estamos dispostos a sacrificar o consumo de hoje, acumulando capital, para beneficiar mais tarde dos ganhos da nossa ação.  
Aplicando a “Teoria da Prospetiva” ao campo das decisões económicas, teremos:
a)          O modo como se apresenta um problema arrasta o tipo de decisão que o agente económica venha a tomar: investir, financiar-se etc., ou não;
b)          O valor do desprazer associado à perda é superior ao prazer associado ao ganho;
c)          O investidor arrisca mais quando perde e quando ganha arrisca menos.
A falsificação de uma teoria pode implicar tanto a sua substituição por outra mais adequada como a sua reformulação. Trabalho que cabe à investigação nas áreas da ciência económica. O sistema capitalista enquanto tal, em alguns dos seus fundamentos, também abre algumas brechas.
Mas para já, há consequências a tirar do alcance desta inovação no domínio da economia: a “teoria do prospecto” de Kahneman e de Tversky deve ser usada como ferramenta estratégica das políticas económicas do Governo, na medida em que através dela o valor da incerteza é ponderado no âmbito previsional.

A TSF considerou Pensar, depressa e devagar o seu livro do dia em 3 de Abril de 2012.